quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Frutas e a vida


Era um dia de café da manhã normal, num sábado igualmente comum, comi uma fruta e nossa, como estava ácida. Intragável. Cuspi fora. Não deu. Prontamente, comentei com meu esposo que ela precisava amadurecer para ficar docinha. Agradável.
Caiu a ficha. Como a vida é engraçada, porque com os humanos é justamente o contrário. Amadurecemos e perdemos a doçura. Ganhamos acidez. Uma criança pequena é super doce. Com a idade, ficamos ácidos, às vezes intragáveis, às vezes azedos – e estes últimos apodrecem por dentro até definharem por completo. Reclamamos com tudo, perdemos a esperança e até pior – a fé. Perdemos a doçura, a gentileza, a compaixão. Perdemos a paciência, ganhamos ironia. Acidez. Rispidez.
Às vezes a culpa não é só nossa. As pessoas agem com as outras de forma má, inadequada, perversa, fazendo com que ser doce seja o mesmo que ser idiota. Fazendo com que ser doce seja carregar o mundo nas costas porque sempre terá alguém para se aproveitar da sua boa vontade – não de uma forma legal e sim da pior e mais sacana possível. Fazendo com que ser doce seja fora de moda.
Mas mesmo assim não devemos perder a doçura. Sem a doçura, as relações perdem o sentido, o valor. Seja doce com quem merece seu néctar. Seja doce com o amor da sua vida. Com seus amigos. Com seus entes queridos. Com o seu cachorro. Com suas plantas. Mas não com qualquer um. Não confunda ser doce com ter educação. Educação deveria fazer parte da rotina sempre; educação é o bom dia, é o por favor, o com licença e o obrigado. Isto você deve dizer a todos. É sua obrigação de cidadão. Ser doce é dizer bom dia com um sorriso sincero, é dizer por favor com humildade, é pedir com licença com tolerância, é dizer obrigado e dar um abraço.
Ser doce é principalmente a forma que você conduz sua vida e seus atos. Não apenas o que você diz. Você pode falar palavras bonitas em tom ácido. Ser doce é levar a vida de forma mais leve, junto das pessoas que têm significado para você. É tornar a vida (tanto a sua quanto dos que você ama) mais feliz, mais gentil, mais colorida. Com essas pessoas, não use a acidez, pois ela corrói a alma. Use a doçura mais pura e verdadeira. Guarde a acidez para se defender de pessoas que não valem a pena, senão você correrá o risco de amargar uma profunda solidão.



quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Transformação


Como as coisas mudam. Movimento. Nada é estático. Pessoas, lugares, paisagens, opiniões. Atitudes, principalmente estas, para o bem ou para o mal. 
Hoje me peguei pensando em tudo o que foi mudado neste ano. Amizades que antes eu considerava, hoje já não existem mais. Pessoas que eram queridas por mim e hoje há apenas recordações em forma de pó. Velhas. Empoeiradas. Passadas. Fora de validade e da minha vida.
Ao mesmo tempo descobri pessoas que antes eram apenas ‘bom-dia’. E foram essas pessoas que me ouviram, acolheram, riram e choraram comigo. Pessoas que surpreendentemente me estenderam a mão. Pessoas que se fizeram amigas. Espontaneamente. Espontaneidade hoje em dia está tão em falta. É... As pessoas surpreendem.
Apareceram pessoas que me fizeram pensar que quanto mais eu conheço a raça humana, mais eu gosto dos cachorros. E outras que me fizeram ter a certeza que Deus existe. E isto um dia pode se inverter. Somos falhos, somos humanos. Mas tomara que não.
Mas mudança talvez ainda não seja a palavra certa para descrever a vida, transformação certamente é mais adequada. Estamos constantemente nos transformando e tudo a nossa volta. E certamente receberemos de volta o que doamos. O sorriso, o bem-querer, o rancor, o desprezo, a amizade ou a inveja. São energias como essas que nos movem, nos transformam e quem sabe, nos mudam, para melhor ou pior.
Hoje vejo o quão aprendi a vida inteira e o quanto eu sou grata por todas as transformações vivenciadas. Umas foram sofridas, mas outras trouxeram plenitude e felicidade, sendo que nenhuma delas foi menos importante. Todas as situações que aconteceram na minha vida me trouxeram uma lição, um exemplo, seja para segui-lo ou até mesmo evitá-lo. Amadureci. Mas ainda falta muito.
Ninguém falou que a vida era fácil e que todos seríamos felizes para sempre. Para sempre não existe. Pessoa perfeita não existe. Atitudes que agradam a todos não existem. Sempre teremos algo de bom dentro de si e algo de ruim também, mesmo que seja pouco. Sempre teremos o que melhorar, transformar. O altruísmo está aí, em pensar e agir com ética, dignidade e respeito ao próximo e consequentemente, a nós mesmos. A escolha é nossa.
Não vou fazer tipo e dizer aqui que estou longe disto, não. Tampouco me enaltecer para parecer ‘quase’ perfeita. Isto não soaria sincero. Deixo os elogios para os outros fazerem. Mas certamente posso dizer que ao menos eu tento. Tento me transformar, e para melhor, porque quero, porque busco e, sobretudo porque acredito que o mundo pode ser sim, um lugar mais ético para se viver.


quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Redes (anti) sociais

Já não tenho mais saco para aparências. Dizem que estou ficando velha. Ou chata. Ou as duas coisas. O fato é que as pessoas estão cada vez mais cansativas. É um tal de ativismo virtual sem nem saber por que, é um monte de foto com filtro, é uma necessidade de compartilhar o que comeu, o que vestiu, pra onde foi, só o que há de melhor na vida. Como se a vida fosse só isso.
Deixo claro que isso não é um texto de recalque. É um texto sobre realidade e um pouco de nostalgia. As pessoas só querem mostrar o que têm de melhor porque a vida já é dura. Pra que mostrar desgraça, se a vida já é cheia de dificuldades? Isso eu concordo e assino embaixo. Mas elas param por aí. Esquecem que existe algo além do instagram e que as relações são maiores que comentários no facebook. Aparentam viver num mundinho perfeito, com pessoas perfeitas, com festas perfeitas, com lugares perfeitos, com drinks perfeitos. E é exatamente isso que elas querem, parecerem perfeitas. Quanta previsibilidade, ignorância, mesmice. Todo mundo sabe que isso é uma farsa, que perfeição não existe.
Veja bem, não é expor seus problemas, suas dores ou suas feridas em rede social. Afinal, rede social não é (ou não deveria ser) casa dos horrores e isso seria burrice. Mas o que vejo é que falta genuinidade e sobra superficialismo. Faltam sorrisos sinceros e sobram maquiagens perfeitas com cílios postiços. Falta conteúdo e sobra instagram. Essa superficialidade me incomoda profundamente, não a felicidade dos outros. Quero mais é que todos sejam felizes e bem-amados, porque o mundo está do jeito que está por conta de tanta gente mal-amada solta por aí... Gente mal-amada e mal resolvida é um perigo.
Mas é tão bom ligar pra uma amiga, aquela verdadeira, do peito e poder desabafar, ouvir a voz, a opinião, às vezes dura, mas sempre honesta, sobre algo que você contou. Sem fotos, sem curtidas, com sinceridade. Muito melhor do que digitar, curtir, postar... isso sim é impessoal, frio. É tão bom sentir-se humano, com falhas, defeitos, medos, ansiedades e ter com quem compartilhar. É tão bom ter sentimentos e menos páginas sociais. Em vez de postar fotos sorrisos Colgate, depois de engolir um lexotan. É muito melhor poder chorar na frente de alguém querido e sentir-se acolhida pela amizade/amor desta pessoa. É tão bom abraçar alguém que você ama.
Tudo, às vezes, me parece tão superficial e falso nos dias atuais, que chega a doer. Parece que não pertenço a esse mundo ‘virtual’. Chega a dar uma profunda tristeza por ver que a grande maioria das amizades se resume a curtidas, baladas, fotos e comentários sem importância. Não é que não se pode mostrar que é feliz, não é isso. Pelo contrário, felicidade é algo maravilhoso de se ver. O que eu falo é sobre não querer viver essa felicidade eterna, falsa, desonesta, com você mesmo. Isso tudo, no final, isola as pessoas. É... Talvez seja o propósito dessas redes – isolar as pessoas para que elas fiquem cada vez mais dependentes disto -  e eu, com a minha velhice/chatice, não consigo entender. E nem quero.


Daniele Van-Lume Simões 21 de setembro de 2016

Isso é amor


Para amar não é necessário encontrar a metade da sua laranja. Ninguém existe pela metade. Eu sou inteira. Pra amar, dois inteiros são necessários. Inteiros que se complementam, e não completam. Você só completa o que falta. Mas você acrescenta. Acrescenta experiências e sentimentos. Inteiros que almejam algo semelhante, nunca igual, porque são dois e não um. Inteiros que se admiram, se respeitam, se querem bem, perto ou longe. Cumplicidade não é geográfica. Inteiros que erram, mas que perdoam. Inteiros que amam, choram, riem juntos ou separados, mas juntos é bem melhor. Inteiros que se encontraram e que não querem se perder. E sabem disso. Lutam por isso. Isso é amor.


Redes (anti) sociais

Já não tenho mais saco para aparências. Dizem que estou ficando velha. Ou chata. Ou as duas coisas. O fato é que as pessoas estão cada vez mais cansativas. É um tal de ativismo virtual sem nem saber por que, é um monte de foto com filtro, é uma necessidade de compartilhar o que comeu, o que vestiu, pra onde foi, só o que há de melhor na vida. Como se a vida fosse só isso.
Deixo claro que isso não é um texto de recalque. É um texto sobre realidade e um pouco de nostalgia. As pessoas só querem mostrar o que têm de melhor porque a vida já é dura. Pra que mostrar desgraça, se a vida já é cheia de dificuldades? Isso eu concordo e assino embaixo. Mas elas param por aí. Esquecem que existe algo além do instagram e que as relações são maiores que comentários no facebook. Aparentam viver num mundinho perfeito, com pessoas perfeitas, com festas perfeitas, com lugares perfeitos, com drinks perfeitos. E é exatamente isso que elas querem, parecerem perfeitas. Quanta previsibilidade, ignorância, mesmice. Todo mundo sabe que isso é uma farsa, que perfeição não existe.
Veja bem, não é expor seus problemas, suas dores ou suas feridas em rede social. Afinal, rede social não é (ou não deveria ser) casa dos horrores e isso seria burrice. Mas o que vejo é que falta genuinidade e sobra superficialismo. Faltam sorrisos sinceros e sobram maquiagens perfeitas com cílios postiços. Falta conteúdo e sobra instagram. Essa superficialidade me incomoda profundamente, não a felicidade dos outros. Quero mais é que todos sejam felizes e bem-amados, porque o mundo está do jeito que está por conta de tanta gente mal-amada solta por aí... Gente mal-amada e mal resolvida é um perigo.
Mas é tão bom ligar pra uma amiga, aquela verdadeira, do peito e poder desabafar, ouvir a voz, a opinião, às vezes dura, mas sempre honesta, sobre algo que você contou. Sem fotos, sem curtidas, com sinceridade. Muito melhor do que digitar, curtir, postar... isso sim é impessoal, frio. É tão bom sentir-se humano, com falhas, defeitos, medos, ansiedades e ter com quem compartilhar. É tão bom ter sentimentos e menos páginas sociais. Em vez de postar fotos sorrisos Colgate, depois de engolir um lexotan. É muito melhor poder chorar na frente de alguém querido e sentir-se acolhida pela amizade/amor desta pessoa. É tão bom abraçar alguém que você ama.
Tudo, às vezes, me parece tão superficial e falso nos dias atuais, que chega a doer. Parece que não pertenço a esse mundo ‘virtual’. Chega a dar uma profunda tristeza por ver que a grande maioria das amizades se resume a curtidas, baladas, fotos e comentários sem importância. Não é que não se pode mostrar que é feliz, não é isso. Pelo contrário, felicidade é algo maravilhoso de se ver. O que eu falo é sobre não querer viver essa felicidade eterna, falsa, desonesta, com você mesmo. Isso tudo, no final, isola as pessoas. É... Talvez seja o propósito dessas redes – isolar as pessoas para que elas fiquem cada vez mais dependentes disto -  e eu, com a minha velhice/chatice, não consigo entender. E nem quero.

Solidão


Solidão. Não sei por que as pessoas têm tanto medo dela. Até que me dou bem com ela. Ela não me incomoda, pelo contrário, fico à vontade. Posso ser quem eu sou, sem maquiagem, sem perfumes caros ou roupas impecáveis. Posso falar palavrão, cantar sozinha, sem me preocupar se estou desafinando ou “pagando mico”.
Com a solidão posso devorar uma caixa de chocolate sem ninguém pra me falar do colesterol. Ou da glicose. Com a solidão escrevo, leio, penso, ou simplesmente faço nada.
Com a solidão, me permito ver novela, estar na bagunça do meu quarto sem ser incomodada. Relembrar fatos tristes ou engraçados e até chorar. Posso colocar máscaras esquisitas no rosto e uma touca metálica no cabelo e ler uma revista quando minha aparência é assustadora.
A solidão me proporciona silêncio, outras vezes músicas altas, outras vezes silêncio e música alta ao mesmo tempo, pois o pensamento está longe – silenciando qualquer música. E ele é capaz de silenciar o mais trash heavy metal.
Com a solidão posso usar calcinha furada, camisola rasgada, não tomar banho antes de dormir. Posso atender quem eu quiser, na hora que eu quiser. Não tenho obrigação de ser simpática.
A solidão traz coisas boas, momentos de reflexão, de criatividade, de mudanças. Com a solidão, posso fazer minhas orações, concentrada e intensamente.
A solidão só é ruim quando deixa de ser momentânea e vira algo constante. Momentos de solidão são bons, necessários, eu diria até vitais. Desfazer-se das personagens e figurinos faz bem pra alma, pro coração.
Viver sozinho não. Sentir-se sozinho não. Viver sozinho é não ter com quem dividir um sorriso sincero, não ter quem abraçar no meio da noite. Não ter pra quem ligar quando algo bom acontece. Não ter com quem dividir o cobertor e o sorvete. Viver sozinho é sentir um vazio constante e ao olhar para sua agenda, ter como compromisso mais importante o médico ou a fisioterapia. Viver sozinho é angustiante, dilacerante, gritante. Um grito silencioso – não há ninguém para ouvi-lo. Viver sozinho é triste, às vezes é egoísta, é certeza de arrependimento futuro.
Deus me livre viver sozinha e hoje eu sei que tenho com quem contar pro que der e vier, afinal encontrei quem procurava durante minha vida inteira. E que Deus assim conserve. Mesmo com um grande amor que encha de alegria seus dias, é bom estar, em alguns momentos, em sua companhia apenas – nem que seja para usar aquela máscara de rosto assustadora. Mas melhor ainda, é ter alguém para dizer eu te amo todos os dias – até usando essa máscara horrorosa no rosto.



Saúde pública, nua e crua


Hoje vou falar um pouco sobre mim, embora o título deste texto seja de interesse da população. Mas o que vim falar é sobre a influência da Saúde Pública na minha vida.
Muitas pessoas sabem da minha carreira acadêmica, da paixão por pesquisas em imunologia, genes, moléculas, citocinas, anticorpos monoclonais... Mas poucas sabem da minha paixão pela Saúde Pública, na prática, nua e crua. Fui biomédica plantonista num hospital e maternidade num dos bairros mais pobres e violentos de Recife - o Ibura - durante 4 anos, e nesse período aprendi coisas que levarei comigo pro resto da vida.
Vi pessoas carentes de assistência e de atenção. Não atenção básica, atenção de olho no olho, de uma palavra de esperança, de um abraço num momento de dor. Pessoas que só queriam que alguém as escutasse, mas o "Dotô" não tinha paciência porque a fila de pacientes estava grande. Vi meninas de 12, 13 anos grávidas, tomando um "dudu" (ou sacolé) como uma criança feliz sem se preocupar com o que estava por vir, enquanto esperavam para fazerem o Beta-HCG, e sem perceber que eram duas crianças na verdade (mãe e filho) e não uma. Vi que até para os bandidos existe algum tipo de ética. Sim, porque quando viam o adesivo do estacionamento do hospital no meu carro, diziam: "deixa pra lá, ela é do hospital", me poupando de assaltos ou coisas muito piores. Eu servia à comunidade deles e não me arrependo.
Tive colegas de profissão geniais e humildes, na mesma proporção. Tive colegas generosos, que davam uma verdadeira lição de amor à medicina. Tive colegas idosos, com jeitão rude, mas de coração imenso (abraço, seu Boni!). Fiz amigos verdadeiros, que sinto falta até hoje. Mas vi também muita gente arrogante, tratando com desprezo e até mesmo nojo, aquelas pessoas carentes de higiene e de educação, negligenciadas pelo estado, pela vida.
Vi como a vida é efêmera, ao diagnosticar uma leucemia numa criança de 5 anos e sentir a impotência na pele. Vi como a vida é bondosa, ao conseguir atendimento com uma das melhores hematologistas do Brasil para minha mãe e que a tratou com todo cuidado e atenção - do mesmo jeito que ela tratava todos os pacientes. Independente de quem fossem.
Aprendi que se quisesse trabalhar lá, teria que me virar. Eu não era só a Doutora Daniele. Eu era faz tudo. Consertar microscópio (sim, abrir, desmontar, limpar, trocar lâmpada), fazer a manutenção de equipamentos, quebrar a cabeça por que a calibração não deu certo, trabalhar com luvas tamanho G, porque as do tamanho correto não foram compradas, ler mais de 100 lâminas por dia, porque os equipamentos eram precários e não confiáveis e eu era a única biomédica plantonista do laboratório. Ah, como me virei ali!
Acordar às 2h, às 4h, às 6h da manhã - ou seja, não dormir - quando explodiu a epidemia de Zika virus e ninguém sabia o que era e a toda hora eram pilhas de exames feitos. Aprendi a lidar com pessoas grossas, pacientes ou não, e me impor para todos, sendo respeitada no meu plantão. Aprendi a escutar, nossa, como aprendi a escutar. Aprendi a calar também.
Na ciência, na pesquisa e no ensino falamos mais do que escutamos: conferências, aulas, seminários, palestras, apresentações de tese, de trabalho, de congressos.
Na Saúde Pública não. Falamos o necessário e aprendemos a ouvir os pacientes, do jeitinho deles e conviver com a desigualdade social todo dia, ali, gritando na sua cara e na sua consciência quando você chega em casa e vê suas coisas, sua geladeira cheia, sua cama confortável e agradece a Deus por tudo que você tem.



Escolhi ser biomédica porque queria "fugir" desse contato próximo dos pacientes. Sou mole, choro com tudo, me apego. Com o tempo, vi que as pessoas confundiam isso com fraqueza emocional. Então criei uma casca, aprendi a ser grossa, aparento ser braba, impositiva - tudo para disfarçar minha essência. Mas na Saúde Pública isso não foi possível. Os pacientes chegavam a mim para perguntar do exame porque o médico não explicou direito. Ou chegavam para contar da vida deles, de que estava sem dinheiro para lanchar e teria que ficar ao lado do filho que foi internado. Alguns descontaram em mim a raiva e frustração pela vida, e tive que me calar e sofrer sozinha, porque no fundo eu entendia o desespero.
À noite, no plantão, deitava para descansar com medo. Teve um tiroteio na comunidade e uma bala furou a parede do repouso feminino. Era uma roleta russa. A porta também não tinha trava, já tentaram entrar uma vez para furtar, mas graças a Deus nunca me aconteceu nada. Sempre tive a proteção Divina, talvez por fazer meu ofício com resignação e amor.
A Saúde Pública me ensinou a ser mais compreensiva, paciente e a entender que eu não posso resolver os problemas do mundo sozinha, mas que posso e devo fazer a minha parte.
Vi a Saúde Pública na sua pior forma: sem remédios, sem leitos, sem luvas para trabalhar, sem equipamentos, sem médicos suficientes, sem estrutura, sem segurança, mas ainda assim aquele hospital era a única esperança de muitos.
Tenho um enorme carinho por essa época, mesmo com tantos perrengues, mesmo ganhando pouco, mesmo passando por situações difíceis e tendo que engolir o choro, mesmo com o medo constante de estar num lugar violento. Tenho carinho porque fiz amigos. Tenho carinho porque amadureci e aprendi a dar valor a tudo que tenho - sou rica, sou abençoada por ter tido a oportunidade de estudar para ajudar essas pessoas de alguma forma. Pessoas que eu não queria contato quando escolhi minha profissão e que no final, me ensinaram tanto, em todos os plantões. Aprendemos todo dia, na teoria e na prática e a Saúde Pública é uma grande lição de vida.




Daniele Van-Lume Simões 21 de setembro de 2016

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Tempos verbais


Futuro do pretérito é o tempo verbal mais utilizado hoje em dia.
Eu ‘seria’, ‘faria’, ‘viveria’... a vontade de ser, fazer ou viver até existe, mas não existe a ação. De que adianta vontade, sem ação. E graças à existência desse tempo verbal, muitos se escondem e o utilizam como álibi para mascarar falta de interesse, covardia ou mesmo baixa autoestima.
Lógico que a culpa não é de nossa língua portuguesa, visto que, por esse tempo verbal existir, se mostra bastante democrática. Beneficia a todos, inclusive aqueles que não sabem o que querem.
Pior que o futuro do pretérito utilizado sozinho, é quando este vem acompanhado do pretérito imperfeito do subjuntivo. Aí, com perdão da expressão chula, lascou. O pretérito imperfeito do subjuntivo, por definição, indica condição, hipótese, sempre acompanhado com o ‘se’. Ou seja, justifica a não-ação do primeiro tempo discutido aqui. Em resumo, é a famosa desculpa esfarrapada...
Exemplo? Vamos lá: ‘Eu até sairia com ela, se ela fosse mais bonita...’ ou ‘Eu procuraria um emprego na minha área, se não fosse tão difícil...’
Cara-pálida, primeiro você já se olhou no espelho? Ou resolveu estudar mais?
Claro que algumas vezes, precisamos usar esses dois tempos verbais sim e a justificativa que utilizamos para não realizarmos algo, além de verdadeira, pode ser coerente.
Mas o que eu estou discursando aqui é que cada vez mais pessoas se aproveitam da existência desses tempos verbais para fugirem da própria realidade, se enganar ou enganar aos outros e permanecerem numa inércia constante. Responsabilizando fatos ou até mesmo outras pessoas pelo seu insucesso ou infelicidade.
Não vou dizer que nunca fiz isso, porque estaria sendo hipócrita. Mas hoje valorizo muito mais pessoas do ‘presente simples’. Vai ver que é por isso que esse tempo verbal vem acompanhado pelo ‘simples’. Eu faço, eu quero, eu consigo, eu vivo. O que eu quero ou realizo hoje é o mais importante. Às vezes condicionamos o presente simples ao futuro do subjuntivo... mas isso também é bom. Indica que você tem planos, objetivos. Sem enrolações. ‘Quando terminar meu mestrado, eu quero seguir carreira acadêmica’. Tudo bem que nesta frase a expressão ‘quero seguir’ é atualmente definida como futuro do presente composto e é facilmente substituída por ‘seguirei’, futuro do presente. Mas ambos, além de terem a denominação de ‘presente’, são objetivamente simples. E expressa um desejo atual de realização. Uma meta – e bem definida. Você saber o que quer.
E você? Qual é o seu tempo verbal hoje?
31/10/2008




Petiscos políticos



Nunca a política brasileira esteve tão inflamada. Impeachment, panelaço, roupa suja lavada em público – e em listas de famosas empreiteiras. Direita e esquerda se confundem num balé de corrupção ambidestro.
E aí entram as discussões sem fim e sem fundamento nas redes sociais, discussões rasas tanto quanto um pires quando derramamos o café. Facebook desisti faz tempo. É tanta asneira e alienação que só dá raiva, além de vergonha alheia e alguns bloqueios. Whatsapp também. Assisto à TV aberta para mensurar o quanto estão tentando enganar o povo. Só que o povo está cada vez mais letrado. Esqueça aquele matuto analfabeto que era enganado até com o troco do pão. Ele não existe mais, graças aos inúmeros programas sociais.
As pessoas estão protestando. Mas não apenas um protesto contra o impeachment e sim a favor da democracia. Do direito de escolha. Do valor do voto.
Já fazemos papel de idiota todas as vezes que um escândalo de corrupção vem à tona, porque é o meu dinheiro, o seu dinheiro que financia farras desmedidas em Paris, gastando milhares de reais em cinco dias, enquanto o seu cartão de crédito anda sem limite. É o nosso dinheiro que financia almoços que custam milhares de reais. É o nosso dinheiro que não é utilizado onde deveria.
Acho muito engraçado os apelidos para direita e esquerda que a mídia veiculou. Os coxinhas são os de direita e os mortadelas de esquerda, mas vejam só que contradição! Coxinha é um salgadinho bem popular no Brasil (e barato também) que encontramos em cada esquina do centro da cidade. Já mortadela tem de todo tipo, algumas bem ruins é verdade, mas também algumas caríssimas, defumadas, importadas da região de Bologna, na Itália. Chiquérrimo. Isso é só um reflexo de que, até pra fazer piada, o povo está perdido.
Bom, eu não sou nem coxinha nem mortadela. Hoje eu sou a favor de diminuir a desigualdade social, de promover o crescimento econômico, transparência financeira e principalmente, da Democracia. Espero que ela ressuscite um dia. É um direito que não abro mão por petisco nenhum.

Mas se tivesse que escolher entre um e outro, te digo, até tenho cara de coxinha, pois adoro um salto alto, uma bolsa de marca, maquiagem importada e um bom perfume e vinho, mas minha alma é de mortadela. É a favor dos menos favorecidos, para que tenham chance de sair da miséria e tenham uma vida digna, sem fome. É a favor dos programas de educação, como o Ciências sem fronteiras, no qual pobre pode estudar no exterior e garantir um futuro melhor para sua família. É a favor do SUS e sua constante melhoria para atender a todos, sem distinção. É democrática. Independente se a mortadela é da padaria do Sr Joaquim ou de um ristorante italiano na Toscana. Nesse sentido, sou muito mais mortadela, mas com cara de coxinha. Taí, sou uma coxinha de mortadela!

01 de abril de 2016


segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Gremlins e filhos



Dia desses, liguei a TV num canal por assinatura e estava passando um filme antigo do diretor Steven Spilberg – que adoro (o diretor, não o filme) – chamado Gremlins, de 1984. Eu não lembrava bem da história deste filme, mas ao terminar de assistir, vi que o Spilberg é um visionário. E vou dizer por que. Fiz uma analogia meio louca, mas perfeitamente plausível para o enredo deste filme nos dias atuais: os Gremlins de ontem são as crianças de hoje.
No filme, para criar os bichinhos fofinhos e meigos de uma forma saudável e sem riscos, era necessária uma série de regras, igual é necessário para criar crianças. Quem não as obedece, e faz a vontade desses bichinhos fofinhos toda vez que fazem carinha de dó e birra, sofre consequências desastrosas da falta de limite, este que não foi imposto no momento certo, na hora certa. Como disse, igualzinho a criar crianças.
Pra completar, há um personagem no filme, um senhor chinês, que adverte sobre os riscos e responsabilidades de se ter um gremlin em casa e que nem todos estão preparados para este desafio. Igual a um filho. Só que no filme, o senhorzinho chinês, quando vê a confusão que o bichano causou na cidade, o pega de volta para que não cause mais estragos, deixando a família que o comprou livre do problema. Mas com os filhos não, eles ficam conosco. Nenhum chinês sábio leva-os embora para nos salvar, caso cometamos algum erro em sua educação, como por exemplo, a falta de limites.
Toda a confusão do filme ocorre exatamente por isso: falta de limite. Falta de obediência às regras e compreensão da necessidade delas. Assim como na vida. No filme, eram três regras principais: não molhar o Gremlin nunca, não o expor à luz forte e não o alimentar após a meia noite, mesmo que ele chorasse. O fato é que, claro, essas regras não foram seguidas pelos donos do bicho e esse, que antes era uma graça de fofo, se transforma num verdadeiro demônio. Aliás, em vários, porque quando é molhado, o bichinho se multiplica em ovos (?). Uma lógica que nem Darwin junto com Capra e toda a complexidade de Morin poderiam explicar, mas ficção é ficção. E eu que não sou louca de discutir com Spilberg sobre evolucionismo. Ele foi diretor do ET...
A falta de seriedade em relação às regras estabelecidas é que causou um pandemônio na cidade. Isso me fez perceber que estamos vivendo em meio a vários Gremlins, só que eles não têm pelos, não tem orelhas pontiagudas, não querem comer após meia noite (aliás, não querem comer hora nenhuma), não se multiplicam, e sim estudam e atendem pelos nomes de João, Vinicius, Aninha, Maria...
São as crianças de hoje. Serão os adultos do nosso futuro. Vejo pais cada vez mais com preguiça de impor regras aos seus filhos e levar a sério a importância de dar limites, propiciando uma liberdade que, quando sem maturidade, pode se tornar uma verdadeira ameaça mais na frente. Vejo crianças chantagistas, choronas, que fingem que não escutam quando o pai ou a mãe chamam, que fazem birra e até ameaçam chamar a polícia! Vejam só quanta ousadia! Se eu chamasse a polícia cada vez que levasse uma bronca ou uma palmada, minha mãe estaria condenada à prisão perpétua. Crianças maldosas, alimentadas de liberdade após a meia noite e durante todo o dia. Alimentadas de vídeo games, de falta de respeito e de regras.
Hoje, eu tenho limites, tenho regras, sei meu lugar. Minha mãe me deu todos (e mais alguns) limites que uma criança poderia ter, talvez por isso eu me choque com tanta falta de respeito e de educação doméstica quando vejo as crianças de hoje. Mas não tenho filhos. Espero que quando eu os tiver, eu me lembre bem destes exemplos – dos Gremlins de ontem e das crianças de hoje e da semelhança entre eles – quando eu resolver impor um limite ou uma regra a um filho. E que eu não fraqueje, para que, em vez de criar um cidadão, não criar um monstro.

07 de janeiro de 2015


Atendimento ao consumidor é bom e eu gosto!


Hoje venho falar de um assunto muito sério: atendimento ao consumidor no Brasil. Olha, posso te dizer, mas já passei muita raiva em inúmeras lojas, sejam físicas ou virtuais. Produtos derramados, roupas desfiadas, sapatos com acabamento ruim ou numeração errada... Foram muitos prejuízos durante minhas duas décadas de vida de consumidora. No entanto, tem uma loja que descobri lendo um blog bem conhecido no universo feminino (O "Coisas de Diva") e virei cliente fiel: a Lush. Uma marca inglesa mas com fábrica no Brasil e vende cosméticos vegetarianos/veganos. 
Faz tempo que procuro por cosméticos sustentáveis, cruelty free etc etc. Não vou dizer que sou vegana. Não sou. Nem vegetariana. Adoro um bom churrasco. Mas me incomoda muito saber que animais são maltratados para que eu fique mais bonita e com menos rugas.
Bom, conheci a Lush virtualmente, já que aqui em Brasília-DF não tem ainda uma loja física e o que mais me cativou na loja não foi a excelência dos produtos, o cheirinho, ser livre de crueldade animais... Foi o SAC deles.
Sempre dispostos a ajudar o cliente, esclarecer dúvidas. Rápidos e corteses no atendimento (abraço, Denis!). Houve uma vez que eu comprei no site um presente para meu esposo. No entanto, o presente veio com alguns itens trocados, pois esqueceram de atualizar o site quanto aos produtos que deveriam constar. O que o SAC fez? (E olha que eu estava p... da vida!) Solicitou que os produtos corretos fossem enviados a minha residência, sem custo algum pra mim, e ainda enviou um mimo para usar na banheira... 
Além de reparar o erro, essa gentileza faz com que o cliente seja fiel à marca, mesmo pagando mais caro, mesmo sem uma loja física por perto. Mesmo tendo que esperar dias pela entrega (que por sinal, nunca atrasaram).
Essa loja é um modelo de excelência em atendimento ao consumidor e se todas as lojas entendessem que o foco não é o produto em si e sim o cliente, não teríamos tantas ações na justiça, tanto estresse e desrespeito com quem movimenta a economia e sustenta o seu negócio.
Claro que eu adoro os produtos dessa loja, mas gosto mais ainda de ser bem tratada.
Thanks, Lush, por tornar meu dia mais feliz, cheiroso e consciente!



sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Pokemon Go - mas para longe de mim

Sabe quando a gente acha que já viu de tudo? Pois bem. Nunca chegará esse dia. A minha certeza foi hoje. Seria um dia de trabalho normal, se não fossem os pokemons em cima da mesa da colega, ou espalhados pelo corredor do Ministério – sem trocadilhos com os funcionários virtuais da Câmara. Pessoas com os celulares em punho, andando como zumbis, atrás de monstrengos virtuais de nomes exóticos – ou eróticos. Taí o Pikachu que não me deixa mentir. Aliás, tudo hoje é virtual. A conta bancária, as informações via e-mail ou redes sociais, o relatório digital, a reunião via Skype, a mensagem do whatsapp. Menos o tempo.
Esse, meu caro, é realíssimo, embora relativo.
O tempo perdido em frente a um computador, geralmente 8h diárias de trabalho ou mais, mais o tempo perdido checando o celular e agora o tempo perdido olhando para a cara de monstros em vez de olhar para a cara das pessoas. O tempo perdido procurando bichos virtuais que de nada servem, sendo que não procuramos aquele amigo que não falamos há meses. O tempo perdido andando pelas ruas – e só é perdido porque se perde também o pôr do sol ou uma árvore florida que está ali, bem no meio do caminho, em toda sua beleza e realidade, porque os olhos não saem da tela do celular.
Depois de hoje, estou assustada. Pessoas conversando na maior naturalidade sobre onde existem pokemons. Pessoas sendo atropeladas, caindo de penhascos, se afogando, atrás desses bichos virtuais. Pessoas sendo assaltadas ou passando apuros até maiores em nome de uma caça a não sei lá o que para coisa alguma. Vi que não há limites – tanto para a genialidade quanto para a alienação. O gênio que criou esse jogo conseguiu alienar milhões de pessoas – e rapidamente. Genialidade e imbecilidade estão andando de mãos dadas, vejam só. Vi que não há mais um senso do que é importante ou útil para gastar seu tempo.
Deixamos de selecionar o que é importante, ou mudamos radicalmente nossos parâmetros sobre a importância das coisas e das pessoas. Apenas o tempo é gasto. E não volta. O importante é estar na moda, atualizado na matrix que tudo tem se transformado.
Desculpem-me os “caçadores virtuais”, mas sou do tempo antigo. Não consigo me sentir parte dessa virtualidade extrema, e nem quero. Não quero andar de cabeça baixa, não quero ver o que não existe e principalmente, não quero que a coisa mais interessante para olhar no meu dia seja a tela do meu celular.


A moda no Brasil



Discurso na TV e panelaço. Combinação que o povo brasileiro tem adotado com frequência. Chega a ser irônico, para não dizer patético, pessoas abastadas batendo panela. Primeiro come-se o jantar, talvez até com filé mignon, e depois se batem as panelas.
Ora, não estou querendo defender suspeitos de corrupção, nem partido A, B ou C. Apenas acho interessante que investigações sobre sítios e casas de praia rendam tantas matérias em jornais televisivos com notoriedade, enquanto que um outro cidadão tem dinheiro para presentear uma criatura que nem seu filho é com um apartamento na Europa, que custa 1 milhão e meio de reais. E o mais espantoso - ninguém se pergunta de onde veio tanto dinheiro. Quanta bondade! Ou será eu que sou maldosa?
Ninguém investiga, ninguém comenta. Se brincar, ainda canonizam o cidadão por tamanho desprendimento aos bens materiais. Enquanto o outro tem os bens fiscalizados, investigados exaustivamente. Quem forneceu material para o sítio, quem decorou os imóveis, que comprou o terreno, se brincar, até quanto custou o vaso sanitário. Um saco.
Enquanto isso, panelas de coleções exclusivas, com tampas de vidro, compradas durante as férias em Miami, são batidas cuidadosamente defronte às janelas de condomínios fechados em bairros nobres.
Sempre achei que quem poderia ter o direito de bater alguma panela, seriam aqueles que as têm vazias. Aqueles que sentem fome. Aqueles negligenciados pelo Estado ou por você, ou por mim. Acho que me enganei. Dessa vez fui inocente. Esses dormem tranquilamente, após jantarem seu arroz com feijão, de barriga cheia. Por enquanto.

02 de fevereiro de 2016


Feminina sim e .

Ouvi hoje uma coisa que me incomodou bastante. Às vezes, queria ouvir menos. Mas ouvi e não foi bom. “A medalha de ouro merecia ter ido para a Marta, mas estão lamentando que foi para o Neymar”. (Tom irônico). Primeiro: Quem lamentou isso, cara pálida? Segundo: a medalha não foi pro Neymar – como bem lembrado por uma amiga minha – e sim para um time.
Homens assim se alegram com o “fracasso” das mulheres. Mas será que foi fracasso? Ser eleita várias vezes melhor do mundo no que se faz, mesmo sem ter os patrocinadores, os milhões, as regalias que seus colegas de profissão homens têm, mas nem por isso desistir? Lutar até o fim, seja no esporte, seja na vida. Lamenta-se fracasso, não força. Lamenta-se bunda molência, não garra. Lamenta-se machismo, não orgulho de jogar pelo seu país e pelo que se acredita.
Mulheres que se destacam, que lideram, que ganham salários justos são minoria, mas temos que lutar pela igualdade de gêneros. No futebol ou em qualquer outra profissão. Essa de que “ah, o Brasil é um país machista mesmo" – ou qualquer outro país – é uma falácia que os homens e mulheres usam para permanecerem inertes frente a tanta injustiça profissional e salarial. A tanta ironia. A tanta cara de pau. Inércia é cômoda, dispende nada de energia e mudanças. Mudanças acontecem com o caos, palavra assustadora, mas utilíssima. Se não fosse ele, não estaríamos aqui, “no Big Bang”, “no life”.
Muitas coisas me incomodam profundamente. Ser mulher e jovem e competente é quase um desacato à sociedade falida provinciana que vivemos, com senhorzinhos de engenho com canecas (e barrigas) de chopp, em seus carros luxuosos, com uma mulher pendurada a tiracolo. Afinal, mulher competente tem que ser idosa, vaidade zero, mal arrumada. Tem que ser sapatão. Tem que ser “homem”. E se além de jovem, competente, inteligente, ela for bonita? Nossa. Ou está de caso com alguém ou é muito fútil porque combina o sapato com o esmalte. O mais impressionante disso tudo é que comentários assim vêm das próprias mulheres. De pessoas que deveriam ser parceiras.
Igualdade de gêneros é uma realidade necessária, que talvez demore a vermos – ou talvez nem consigamos essa felicidade enquanto estivermos neste plano – mas temos que fazer nossa parte. Se as ativistas do WLM não queimassem sutiãs, talvez não votássemos, não trabalhássemos, não crescêssemos na carreira, não tivéssemos o direito de sermos belas, seja do lar ou dos negócios. Recatada eu ou não. Isso eu nem comento. É deselegante demais comentar vida íntima. 
Ocupam-nos até o limite da capacidade de administrar uma vida com alguma sanidade. Somos vítimas de um machismo descarado e ao mesmo tempo, somos inertes ou ocupadas demais para rebater tal comportamento. Uma bola de neve perfeita para que o machismo perdure. E claro, a culpa é nossa. Só e sempre nossa.
Quando pequena, enquanto todas minhas amigas brincavam de boneca e sonhavam em casar e ter filhos, eu me imaginava discursando para uma plateia imensa, num idioma estrangeiro, de tailleur, chiquérrima - a cara do sucesso. Na OMS. Rá. Estou chegando lá.
Hoje, a cobrança é outra. Temos que ser mães, donas de casa, esposa, fazer sexo dia sim dia não, levar dinheiro pra casa e sermos fortes e profissionais, aguentar assédio moral e sexual porque “faz parte” e nada de cólica, TPM, dor de cabeça ou mandar tudo à merda e comprar uma prancha e se mudar de vez pro Havaí. Cobrança para ser mãe... Afff, me irrita profundamente as pessoas não respeitarem o direito de escolher você NÃO querer ou sonhar com isso. Sempre quis adotar, mas não decidi se quero parir. Sou menos mulher por causa disso? Algumas pessoas acham que sim.
O fato é, cada vez que me deparo com essa realidade, sinto uma inquietude e uma vontade de fazer mais e melhor – mas não para provar para os homens que sou capaz e sim para provar para mim mesma que ninguém – homem ou mulher - vai me subjugar por causa da cor do meu batom, do tamanho do meu salto ou do tom de voz mais agudo. Minha capacidade não anula minha vaidade. Não precisamos de piedade e sim de liberdade. A luta é diária. Não podemos desistir, nem ficarmos inertes. Somos vítimas, mas não precisamos ser passivas e nos conformar. Mais do que honrar “as calças”, honre seu batom. E se precisarem de mais sutiãs para serem queimados, o meu certamente estará no meio.


Voltas que o mundo dá



Hoje retomei um projeto que começou na adolescência, de forma totalmente despretensiosa: escrever crônicas. Ao longo de - ahã- 15 anos (sem contas, please), escrevi opiniões ferrenhas, narrei histórias ou simplesmente discorri sobre fatos cotidianos.
As crônicas começaram a fazer parte da vida, como algo visceral, até mesmo um desabafo, tão minhas! Um desabafo silencioso, alguns rudes, outros doces, outros nem tão silenciosos assim. O mais engraçado é ler as crônicas antigas e perceber o quanto mudei. Mudei de gosto, de ideia, de opinião, de cidade, de estado civil e de profissão.
Mudei inclusive fisicamente, mas a essência... Ah, essa não muda.

A paixão pelas letras permanece. Como uma adolescente boba sentindo borboletas no estômago. Aliás, nem gosto muito de usar a palavra paixão. Paixão dá e passa. É amor mesmo. Pra vida toda.