segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O Halloween e as bruxas


Hoje é Dia das Bruxas, ou o nome chique, Halloween. Desde crianças nos é ensinado que as bruxas são más, feias, enrugadas e verruguentas e fazem feitiços para fazer mal às pessoas. Elas são capazes de tudo para tirar quem não gostam do seu caminho. Na verdade, não precisa ser bruxa para agir dessa forma. Pessoas fazem isso. O tempo todo.
Demonizam as bruxas, mas não sei se elas são tão más assim. Para quem leu os livros “As brumas de Avalon” sabe do que estou falando. Talvez demonizem as bruxas pelo simples fatos de serem mulheres. Assim como Joana d’Arc, assim como Maria Madalena, assim como Eva. Levamos sempre a culpa. Carregamos o peso da maldade desde os primórdios, mesmo que esse peso não seja nosso. Mesmo que a maldade não esteja em nós.
No livro, as bruxas são pessoas intuitivas, conectadas visceralmente às leis da natureza e que preservam tudo o que a terra dá. São mães de si mesmas e de todos à sua volta. Respeitam as pessoas da comunidade, respeitam o espaço comum, respeitam as forças naturais e as usam em seu favor. Cuidam para que tudo continue seguindo seu fluxo natural, sem desvios.
As bruxas têm sentimentos bons e ruins, como todas as pessoas, mas escolher qual deles alimentar depende de caráter – e isso não tem nada a ver com ser bruxa ou fada.
Para quem não sabe, o verdadeiro Halloween nada tinha a ver com bruxas ou feitiçarias. Era uma festa de celebração celta que marcava o fim do verão na Irlanda e países próximos(o festival de Samhain) e que durava 5 dias, com início em novembro. Como os mortos eram homenageados neste festival pelos seus ensinamentos deixados aos vivos, o festival ficou conhecido como “a festa dos mortos”.
Posteriormente, após a intervenção da igreja católica, seria adotado o dia de todos os santos (1 de novembro), seguido do dia dos finados (2 de novembro) para substituir este festival. No final, é a mesma coisa. Sacro e profano se misturam. E aí, as bruxas foram incorporadas nesse contexto meio que por acaso, mais precisamente na idade média. 
Mulheres que eram consideradas curandeiras, por conta de seus chás, preparos e remédios - além da sabedoria -, eram terrivelmente perseguidas pela igreja durante a idade média e por isso eram queimadas vivas – o que não difere muito dos dias atuais, quando a violência contra as mulheres continua absurdamente alta. As mulheres levaram a culpa e pagaram o preço com suas vidas. Ainda hoje é assim.
Com o tempo, essa atrocidade foi abolida e o Halloween se tornou no que vemos hoje: uma festa cheia de simbolismos e brincadeiras, com a famosa frase “doces ou travessuras?”.
Ainda bem que os costumes dessa festa mudaram, mesmo que em nada lembre a tradição Celta, tão bonita, respeitosa e tão simbólica. Hoje é uma festa lúdica, na qual crianças se fantasiam, brincam, ganham doces. Os adultos se divertem. Não há fogueiras inquisitivas, mas há bruxas. Ainda bem. Todos saem ganhando.
Daniele Van-Lume Simões 31/10/2016





sexta-feira, 28 de outubro de 2016

A esperança e a gratidão


Gratidão. Aquele sentimento que parece infinito, mesmo que dure poucos segundos. Gratidão é sentir-se em comunhão: com Deus, com as pessoas, com você mesmo. Tudo é conectado, só que sem Wi-Fi e tecnologias. Basta humildade de reconhecer tudo de bom que ocorre na sua vida, mas sentir-se merecedor de recebê-las.
Gratidão é o que algumas doutrinas pregam. Outras pregam o medo. Uma pessoa amedrontada não tem o que agradecer. Uma pessoa grata não tem o que temer. Sabe que, de certa forma, o universo a protege. Essa força que faz com que sintamos felicidade inexplicável e certeza de que, no final, tudo dará certo.
Agradeça todas as bênçãos e oportunidades, não por medo de deixar de recebê-las, mas porque a gratidão alimenta a alma com boas energias - também conhecidas como fé.
Às vezes, invertemos a ordem. Temos fé para conseguirmos algo e só então agradecemos. Experimente fazer o contrário: agradeça tudo de bom que ocorreu na sua vida, no seu dia, por menor que seja, agradeça a oportunidade de estar vivo - sim, porque a vida é frágil na mesma proporção que é forte - e sinta sua fé renovar-se, fortalecer-se e seu coração encher-se de esperança.
É pela esperança que seguimos em frente e lutamos pelos nossos sonhos e ideais - mas tudo começa com a gratidão.

Daniele Van-Lume Simões
28/10/2016




O invejoso e o invejado


Primeiro gostaria de me desculpar, pois estou sem computador aqui e estou escrevendo do celular. Mas como a vontade de escrever bate e não escolhe nem hora ou lugar, estou a fazê-lo.
O título da crônica é pesado, como tantas outras coisas na vida. Mas meu objetivo é ser pragmática.
Todo mundo conhece alguém invejoso. E para ser invejoso, não precisa muito, basta uma coisa: a mediocridade.
Uma pessoa invejosa sente prazer em arruinar a vida, o dia ou algumas horas que sejam de alguém, por um único motivo: sua vida é vazia de valores.
Um invejoso é insatisfeito no trabalho, nas relações pessoais (eu diria, inclusive, nas sexuais) e nas familiares. Um invejoso não consegue finalizar um projeto, seja de vida ou profissional, porque anda muito ocupado com a vida alheia. Um invejoso tem uma cara sizuda, rugas na testa, mas que não são de preocupação e sim de insatisfação.
Um invejoso pode estar em qualquer lugar, no trabalho ou na família ou na roda de amigos.
Mas como ele é dissimulado e tal qual judas até te dá dois beijinhos, ele acha que ninguém percebe suas intenções.
Já o invejado vê tudo isso, e silencia. Ora. Medita. Ou manda a pessoa às favas e na volta, ainda catar coquinhos.
O invejado tem uma vida com relações sólidas, o que não quer dizer perfeitas, mas sabe que existem pessoas que ele pode verdadeiramente contar.
O invejado tem segurança do que é e de onde quer chegar, e para isso não precisa humilhar ou passar por cima de ninguém.
O invejado tem boas ideias, bom humor e bom gosto, além de criatividade, o que faz com que alguns o admirem verdadeiramente. E por isso muitos o invejam.
O invejado tem bom senso, educação mas tem postura e opinião. Coisas que o invejoso não tem. Maria vai com as outras.
O invejado tem fé, tem esperança e mesmo passando por algumas injustiças, consegue acreditar nas pessoas ainda. O invejoso só enxerga deméritos. O invejado, virtudes.
O invejado não tem a vida ganha, ele ganha a vida todo dia com seu suor e méritos. Já o invejoso não tem sequer vida - vive das dos outros.
O invejado tem Deus, o invejoso, rancor.
O invejado tem amigos, o invejoso, alvos.
O invejado conhece o amor verdadeiro, o invejoso conhece o vazio.
O invejado não se preocupa com o invejoso, ele sabe que é algo muito pequeno diante da complexidade da vida. O invejoso não sabe o que é ter vida.
O invejado sabe que no jogo da vida, há um perdedor e um ganhador e por isso batalha e dá o seu melhor. O invejoso sequer sabe jogar, desconhece as regras, a ética, e até as pessoas.
E você? Em qual time joga?

Daniele Van-Lume Simões
28/10/16




terça-feira, 25 de outubro de 2016

O tempo e a relatividade


Faz um tempinho que não posto crônicas no blog. Andei sem tempo de escrever, mas não deveria, porque não o temos a mais nem a menos. O tempo é o mesmo. Ele é soberano, simplesmente existe.
No entanto, a forma que o tempo se expressa pode ser relativo - e acredito que foi isso que Einstein tentou dizer com aquela fórmula. Não sou física, nem gosto de matemática, mas sabemos que é relativo quando sentimos o tempo parar ou correr, quando nos misturamos a ele. 
O tempo para quando nos lembramos de algum momento bom, ou do sorriso da pessoa que amamos, ou da nossa infância. O tempo para quando estamos esperando ansiosamente uma boa notícia, ou quando contemplamos o mar. O tempo para quando olhamos um álbum antigo ou escutamos uma música que gostamos ou tomamos o sorvete predileto num dia de calor. O tempo para quando conversamos ao telefone com a melhor amiga ou quando lemos o um livro bacana ou assistimos à série favorita. O tempo para quando fazemos uma oração ou quando ajudamos alguém que precisa. O tempo para principalmente nas coisas boas e corre nos momentos de dificuldade e desespero - o tempo é sábio. 
Nunca entendi quando diziam 'Nossa, foi tão bom, pena que o tempo voou'. O tempo não voa nas boas lembranças ou nos bons momentos, ele é eternizado. Tantas situações que sentimos o tempo parar, mas acho que na verdade, quem para somos nós.
Damos um respiro. Sentimos que há coisas interessantes na nossa vida e momentos felizes para serem aproveitados, nem que sejam na memória - onde o tempo pode parar sempre que quiser.
Hoje, depois de alguns dias sem escrever resolvi sentir o tempo parar, me permitindo parar eu mesma. Parei, respirei, me recompus, comi um bolo de chocolate com calma e escrevi este texto. Parei meu tempo, para sentir a cada segundo que passa que a vida urge. 

Daniele Van-Lume Simões 25/10/16



sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Disfarces


Passamos a vida tentando disfarçar. Quando crianças, tentávamos disfarçar quando fazíamos xixi na cama ou o boletim (e nada adiantava, o castigo era o mesmo). Mais tarde, tentávamos disfarçar as espinhas durante a adolescência com maquiagens, corretivos ou o tamanho desproporcional das pernas com roupas largas ou a insegurança disfarçada de mal-humor típico da fase... Mas de nada adiantava. Em seguida, tentamos disfarçar as rugas, com arsenais de cremes, ácidos, potes para rosto, pé, mão, corpo (ui, e rosto não faz parte do corpo?)... Disfarçamos a idade, os quilos a mais que ganhamos com o tempo ou aquela celulite que não existia com uma calça preta. Disfarçamos que os seios já não são mais os mesmos com sutiãs com enchimento: "ah, é só uma esponjinha...". Tira a esponjinha para ver onde vai parar. Disfarçamos sorrisos, olhares, até a nossa raiva, muitas vezes - ou quase todas - disfarçamos quando alguém nos faz mal e engolimos em seco. Mas parece que mesmo com tantos disfarces, tudo fica evidente.
Disfarçamo-nos no carnaval com fantasias, sem culpa, mas é tudo disfarce, brincadeira, no carnaval pode. É liberado. Brincamos com o sério também: Disfarçamos sentimentos, sejam bons ou ruins... Olha que crueldade? E daí os disfarces se estendem aos dois beijinhos no rosto em quem não gostamos, aos abraços que deixam de existir por puro descuido, a apatia mesmo quando o mundo gira velozmente e te exige no mesmo nível de velocidade. 
A vida seria muito mais feliz com mais beijos e abraços nas pessoas que são importantes pra nós, sem disfarces. Disfarçamos o quanto ganhamos e o que conquistamos para evitar 'olho gordo'. Disfarçamos a desconfiança nas pessoas ao esconder nossos princípios, nossa opinião e nossa vida. É, disfarçamos também a inveja, chamando-a de 'invejinha branca'. Inveja é inveja. Branca, preta, azul, roxa com bolinhas amarelas, não interessa. Admiração é outra coisa. Que também é disfarçada em omissão porque nosso ego, às vezes, não permite que a demonstremo-la. 
Disfarçamos até mesmo nossa fé numa roda de céticos, quando damos a entender que desconfiamos da história da nossa própria crença. Muito triste disfarçar até isso. Mas se tem uma coisa que nunca conseguiremos disfarçar é o nosso caráter. Ele nos acompanhará, sempre, em qualquer circunstância. O caráter não permite disfarces. Não a médio, longo prazo. Na primeira impressão, sim, ele pode ser disfarçado, dissimulado, escondido. Mas com o tempo, ele, o verdadeiro caráter, dará um jeito de aparecer. Seja numa conversa, numa atitude, ou até num ato-falho. E aparecerá, nu, cru, mostrando quem você é, para sua sorte - ou azar.

Daniele Van-Lume Simões 21/10/2016



quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Boa tarde

Nos dias atuais, é comum estarmos sempre buscando algo ou insatisfeitos com alguma coisa. É a promoção que não veio, é a grana que acabou antes do fim do mês, é o carro no conserto, é a balança acusando dois quilos a mais, é o exame que não deu o resultado que gostaríamos, é a fila do supermercado, é a quantidade de trabalho, é a TPM ou simplesmente o tédio. Tudo é desculpa para um mau-humor constante e um resmungo diário. Ainda mais quando estendemos esse mau-humor para as pessoas próximas. Competição de “sofrência”.
Mas HOJE eu quero celebrar a vida. Sim, a vida. A natureza e sua plenitude, as oportunidades de trabalho, a saúde, o almoço quentinho, o telefonema de quem amamos no meio do dia, o sentimento bom que nutrimos por alguém e por nós mesmos, a amizade verdadeira, o sabor do cafezinho fim de tarde, a criatividade, imaginação, a família, as pequenas coisas e os sonhos.


Problemas todo mundo tem, nem sempre as coisas vão bem ou como gostaríamos, afinal é muita coisa junta para dar certo concomitantemente: família, amor, dinheiro, carreira, saúde, amigos, realizações. É até sacanagem pedir tanta coisa a Deus de uma vez só, ou se cobrar tanto para que tudo seja perfeito. Tudo perfeito, do jeito que queremos, é raro. E mesmo quando tudo parece estar em ordem, muitos têm a sensação que ainda falta algo. O ser humano é complexo, nunca se satisfaz com a plenitude simplesmente porque não percebe que ela está relacionada à forma que você encara a vida – mesmo com problemas. Você não precisa ter tudo para se sentir pleno. Plenamente feliz. Perfeição e Plenitude não são a mesma coisa. Fique com a segunda.
Quando se está com algum problema, parece que tudo vai se desequilibrar, como uma torre de baralhos. Mas, na verdade, é o contrário. É justamente pra equilibrar, pra que a gente não esqueça o que realmente importa, quem importa, nossos valores, nossos objetivos, nossa capacidade, nossos sonhos. É para que a gente não esqueça que existe a esperança, a fé e a força interior que nutre dia após dia nossa vida e faz com que ela tenha sentido, ainda que incompreensível às vezes. Problemas de toda ordem existem e sempre vão existir, mas a vida é muito valiosa para que percamos tanto tempo pensando só neles. 
É por isso que HOJE eu tenho que agradecer, muito mais do que reclamar. HOJE, eu escolhi valorizar as dádivas que recebo e vivencio, desde as pequeninas até as grandiosas – como o pôr do sol, por exemplo. As maiores dádivas independem de nós, basta que tenhamos humildade para reconhecer sua grandiosidade e apreciá-las. HOJE escolhi ter fé em Deus, em mim e nas pessoas – mesmo que esta última seja a mais difícil de todas. HOJE escolhi aproveitar cada minuto do meu dia com bons pensamentos, com boas ações e orações silenciosas. HOJE, escolhi a contemplação da vida. Escolhi contemplar a minha história e me sentir plena. Escolhi a gratidão.


As dádivas que vivenciamos sempre serão maiores e mais significativas que qualquer problema, e por isso eu as agradeço imensamente, no meu íntimo, numa conversa direta com Ele e comigo mesma, e até com você, que está lendo este texto. HOJE eu consegui perceber isso a tempo, antes do dia terminar.
Boa tarde.

Daniele Van-Lume Simões setembro/2013, adaptado em 20/10/2016


Crianças e rótulos


Dia desses vi uma reportagem na internet que me chocou um pouco. Aliás, choque nunca é pouco. Fiquei chocada mesmo. Alguns pais criam seus filhos como sem gênero. Isso mesmo, sem gênero. Os filhos não sabem se é menino ou menina. Eles vestem seus filhos com roupas neutras, cortam os cabelos de forma neutra, colocam nomes neutros, sequer informam aos seus filhos sobre seu gênero, nem seus familiares, tudo isso alegando que a criança tem que escolher o que ela quer ser. Oi? Como ela poderá escolher o que quer ser se ela sequer conhece as opções? Pra mim, surreal, e olhe que nem sou tão careta assim.
Uma criança pequena, que não sabe seu gênero, certamente não desenvolverá sua identidade com segurança. E com tantas definições – e alguns modismos - que vivem surgindo por aí a respeito de gêneros, e as pessoas estão confundindo gênero com sexualidade. Uma coisa nada tem a ver com a outra. Gênero é como você se vê, se entende e se sente bem e realizado. Sexualidade é o que você deseja para se relacionar – e isso nada tem a ver se você usa calças ou vestido.



Fui criada à moda antiga, e quem nasceu na década de 80, sabe que a criação só era considerada respeitosa na maioria das vezes, se fosse preconceituosa. Embora eu seja do gênero feminino, me enxergue como mulher e seja heterossexual (ou seja, dentro dos padrões de “normalidade” dos anos que fui criada), não tenho absolutamente nada contra quem não segue esse padrão, independente da década que tenha nascido. Pelo contrário, quero mais que as pessoas sejam felizes, como queiram ser – homem ou mulher, gay, hetero, trans, bi, assexuado, andrógino – que seja, mas sejam felizes, pois o mundo já está cheio de rancor e gente mal resolvida. Quero mais é que as pessoas sejam felizes com o gênero e a orientação sexual que escolheram. Mas capacidade de escolha exige responsabilidade e maturidade, para que realmente a pessoa se sinta feliz com o que se é.
Mas para mim, criar uma criança neutra, é negar a essência dela, é deixa-la confusa a respeito de si mesma, sobre o que ela é e isso pode causar danos graves no futuro, como por exemplo, insegurança de se assumir caso resolva mudar, pois não saberá sequer em que mudar. Poderá causar, inclusive, muito mais dúvidas do que certezas – inclusive sexuais. E toda dúvida gera sofrimento, até que se tenha a resposta.



Nunca faria isso com um filho ou filha meus. Jamais tiraria o direito de eles reconhecerem a própria identidade, mesmo que biológica, pois é a partir dela, que valores, desejos e ideais são formados, avaliados, mudados, transgredidos. Menino é menino e menina é menina – e devem ser identificados como tal - até que eles tenham maturidade suficiente de querer mudar de gênero ou permanecer nele – independente de orientação sexual.




Desejo sexual, a meu ver, não será definido com mais clareza em uma criação amorfa, neutra. Isso é contra a natureza, contra os instintos, contra a vida. Yin e Yang, positivo e negativo, óvulo e espermatozoide, fogo e água, terra e ar, céu e inferno, mais que contrários, são complementares, e importantes na mesma proporção – o que não impede que você transite entre um e outro, se for de sua vontade ou siga os padrões que você foi criado. Criar uma neutralidade “absoluta” enquanto uma criança está em formação é negá-la em sua própria existência. É reduzi-la a algo sem definição.
O mais contraditório disso tudo é que a mãe de uma dessas crianças usa cabelo comprido e batom vermelho, mesmo dizendo que procura viver sem rótulos e por isso não rotula o/a filho/filha. Mas ela mesma se rotula. E isso não é ruim, pelo contrário. Não sei qual o problema de rótulos. Até refrigerante tem rótulo.
Rótulo é apenas um nome vulgar de uma definição de si mesmo, sobre sua essência, e que é mostrado às pessoas de forma objetiva e às vezes superficial, mas é você. Entenda, o rótulo tem que ser dado por você mesmo. Algumas sabem ler os rótulos corretamente, outras não conseguem interpretá-lo e compreendê-lo – daí os preconceitos, mas ele está ali, definindo quem se é e no que se acredita, definindo seus ingredientes. 




No entanto, quando se trata de uma criança em formação, uma criança pequena, é necessário que esse rótulo seja dado pelos pais, para que ela tenha capacidade de desenvolver sua própria identidade, de se sentir segura em seu corpo e de escrever seus “ingredientes” ao longo de sua vida. E se o rótulo dado por eles não for o mais apropriado quando o indivíduo tiver consciência do que se é e do que quer ser, nada impede de muda-lo, de reescrevê-lo. Até mesmo de rasgá-lo e viver na neutralidade, mas somente se for de sua própria escolha.


Daniele Van-Lume Simões 20/10/2016



quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Caminhos escolhidos

Muita gente vive com dúvida sobre a carreira que escolheu seguir. Às vezes, nunca conseguiremos respostas. Dúvidas sempre vão existir e você escolhe se vai dar margem a elas e viver numa angústia e insatisfação sem fim ou vai fazer o que naquele momento você julga ser o melhor para você. Tudo tem os dois lados e uma consequência. E fazer escolhas é assumir riscos.


A diferença entre uma vida de realizações ou uma medíocre é a satisfação pessoal que sua escolha profissional traz pra você.
Eu tenho duas grandes paixões: Ciência e Escrever. Além de vinhos, mas não consegui ainda ter minha vinícola... hahaha. Mas escrever pra mim é um hobby, uma forma de desestressar do dia, do trânsito, do calor, do tédio ou de mim mesma. É quando coloco tudo pra fora sem medo nenhum de ser feliz. É quase terapêutico. Se fosse obrigatório, certamente seria maçante. Então sobra a Ciência.


Fiz carreira acadêmica, mestrado, doutorado, tudo como manda a cartilha do pesquisador. Fiz e não me arrependo. Mas como nada é perfeito, não foi um mar de flores. Muitas vezes, me virei nos 30, nos 40, nos 50 para um experimento dar certo. Quebrei a cabeça com softwares estatísticos que odeio mexer. Senti-me isolada do mundo, pois além de viver com pouco dinheiro (quem teve uma bolsa de mestrado, sabe do que estou falando), passava meus fins de semana dentro de um laboratório frio, branco, impessoal – de jaleco, sem maquiagem e com vários cálculos de concentração de antígenos por fazer. Precisava passar por isso e passei porque queria ser doutora, cientista – era meu sonho. Amadureci e segui em frente. Fiz Doutorado, passei por mais tantos outros perrengues, mas consegui. Terminei, PhD, ufa e agora?
Chegou a hora de decidir no que trabalhar – já que pesquisa remunerada com bolsa não é considerada trabalho no Brasil (o que é um verdadeiro absurdo) - e para a área acadêmica no país só há uma saída: concursos públicos. Fiz alguns para biomédica, para pesquisadora, passei em todos, alguns fui chamada, outros não, mas eu queria mais, queria um concurso federal, num Ministério, que por acaso era o da minha formação, o da Saúde.
E como sempre, fui me dedicar a conquistar meu sonho. Trabalhei como biomédica, como professora universitária, como case manager – afinal, precisava pagar as contas - até que... Consegui. Vim sozinha para Brasília, sem conhecer a cidade, com a grana curta, fiz minha prova voltei para Recife e um ano depois, quando menos esperava, ganhei um presente de Natal: fui chamada num concurso que eu queria. 


Não foi difícil a prova, mas só não foi assim porque eu estudava havia anos. Mas o caminho foi longo, junte 4 anos de graduação mais 2 de mestrado mais 4 de doutorado e mais alguns anos de estudos entre uma coisa e outra... Sempre Saúde Pública, Vigilância, Métodos de Diagnóstico, Doenças Negligenciadas, imunologia etc... Caminho longo é a melhor definição. Não foi difícil passar na prova - porque as pessoas confundem disciplina com dificuldade -, difícil foi o caminho percorrido até conseguir o meu objetivo. Também não foi fácil o pós-concurso. Esse sim exigiu, sobretudo, além de abdicação, muita coragem.
O pós-concurso exigiu mudanças drásticas. Mudança de carreira (antes eu era pesquisadora, agora estou começando como tecnologista, com pessoas novas, num ambiente novo, numa função nova), mudança de hábitos, mudança de cidade, de clima, de emprego, de rotina, de amigos, de orçamento, de vida, de tudo. Deixei pra trás família, casa, emprego, amigos e vim com a cara, a coragem, algum dinheiro e meu esposo, que corajoso como ele só, me apoiou desde o primeiro momento e a primeira conversa. E veio no mesmo dia que eu. Assim como o meu pai, que morro de saudade e ainda me apoia até hoje. Mesmo o sonho sendo meu, eles realizaram o sonho junto comigo e se não fosse por eles e com a ajuda deles, eu não teria tido a coragem que tive.


Apesar disso tudo, de todo apoio, não foi fácil a adaptação. Aliás, ainda estou nesse processo. Tem dias que bate uma nostalgia, uma tristeza até - mas não dúvidas. Sinto que tomei a decisão certa. Sinto que não posso mais recuar - nem quero. Sinto que fiz o que deveria ter feito. Não sei o que teria acontecido se tivesse continuado em Recife, como estaria minha vida lá. Nunca saberei, porque dúvidas não costumam fazer parte da minha vida quando se trata do que quero - só na hora da escolha do sapato ou do batom (ai, como sofro!). E quando elas insistem em rondar minha mente, me colocando para baixo, as afasto com bons pensamentos, orações, uma boa leitura e claro, uma crônica.
Portanto, o que quero dizer com tudo isso é que, mesmo que você não esteja no seu melhor dia, não desista do seu objetivo de vida, por mais arriscado que seja, por mais que exija força, atitude, disciplina. Lute pelo que acredita. Siga em frente, olhe pra frente.
Faça suas escolhas sem medo de errar, apenas as faça com o que julgas ser melhor para você. E se errar na escolha, nada te impede de recomeçar. Ou de iniciar um novo projeto. Ou de correr atrás dos seus - novos - sonhos. Ou de começar um blog. É só querer. Mas quando for atrás do seu objetivo de vida, não se esqueça de levar a coragem consigo, pois só ela te mostrará o melhor caminho a ser seguido em busca da sua felicidade plena, mesmo que seja o caminho de volta.


Daniele Van-Lume Simões  19/10/2016


segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Elogios sinceros me interessam


Aconteceu hoje um fato interessante: o verbo elogiar não existe mais. Não no corretor do celular do meu marido, pelo menos.
Ele estava digitando uma mensagem e escreveu "elogiei", e prontamente o corretor grifou de vermelho. Não reconheceu a palavra. Ela não existia naquele idioma, que por acaso, era o português. Na hora achei graça. Mas depois vi que isso tem acontecido (não apenas no celular) constantemente e fiquei pensativa.
Elogios têm sido cada vez mais raros. Não aqueles que lemos nas redes sociais, quando se posta uma foto super produzida. Muitas vezes, eles são falsos, até irônicos. Estou falando daqueles elogios que recebemos olho no olho, honestamente, de pessoas que te admiram.
Elogios recebidos sejam por conta de um bom trabalho, de um bom corte de cabelo, ou de uma gentileza. Elogios vindos de quem menos esperamos e por isso são ainda mais gratificantes. Elogios que nos fazem mais autoconfiantes e faz com que ganhemos nosso dia. Elogiar faz bem para quem o faz e para quem ouve. E sentir-se bem quando somos elogiados não é sinônimo de carência não. E sim reconhecimento.
Esses elogios - os verdadeiros - estão em falta. Palavras para destruir alguém lemos aos montes nos sites, ou pior, ouvimos aos montes por aí. Mas elogios sinceros estão cada vez mais raros. Admiração está cada vez mais escassa. Quando existe, maldosamente é confundida com inveja. Não é errado admirar alguém e muito menos elogiar. Mas ficou fora de moda, virou sinônimo de fraqueza, ou de cobiça, ou de puxa-saquismo. Os valores estão cada vez mais invertidos. Difícil hein?
     Talvez por falta de elogios, existam tantas pessoas doentes da alma. Tomando remédios. Ansiosas. Tristes. Mesmo com a conta bancária gorda, estão com a autoestima machucada. Mesmo com o corpo lindo, veem defeitos que não existem. Mesmo com família e saúde e emprego, sentem um vazio sem fim. Falta reconhecimento. Crescemos ouvindo que temos que ser mais nós mesmos, não importando o que os outros digam. Mas nessa grande matrix que é a vida, o que os outros dizem a nós e sobre nós pode fazer a diferença entre um dia feliz e um dia medíocre. Entre uma vida de realizações e uma vida amarga.
Elogie quem você ama, elogie quem você admira, seja gentil com as pessoas, torne o dia de alguém melhor com elogios sinceros. Faça um bem para a alma - a sua e a de quem você elogiou. Antes que esta palavra suma de vez das nossas vidas.
Daniele Van-Lume Simões
17/10/16


O que te importa?

Hoje acordei com uma notícia triste. Um primo do meu esposo, de apenas 31 anos, faleceu de infarto fulminante. Algo surreal, numa sociedade que está cada vez mais cuidando da alimentação, adotando hábitos saudáveis, praticando exercícios. Mas há a genética - difícil de controlar. E mais ainda, há o acaso.
Acaso, genética, hábitos saudáveis, estresse... Não importa o motivo. Importa o fato. E este fato me fez repensar muita coisa.
Como perdemos tempo fazendo coisas que não gostamos por obrigação, no automático, e chegamos em casa cansados, esgotados fisica e mentalmente?
Como deixamos de conversar com as pessoas que amamos, por falta de tempo, ou de paciência?
     Como nos permitimos ser consumidos por futilidades, notícias ruins, sujeira política, em vez de contemplar um belo pôr do sol? Ou o mar? Ou fotos antigas? Ou o rosto do seu amor enquanto fala? A vida é mais simples. A morte, nem tanto.
Dizemos pouco que amamos, demonstramos pouco o que sentimos, olhamos pouco nos olhos, ajudamos pouco o semelhante, escutamos pouco quem precisa, fazemos pouco o nosso trabalho, agradecemos pouco a Deus ou a quem quer que seja, vivemos pouco, mesmo que com 80 anos.
A quantidade de vida não está ligada a quantidade de aniversários e sim à quantidade de momentos felizes que vivemos durante nossa jornada. É mais simples do que podemos imaginar. Eu gosto dessa palavra - simples. Simples e simplório não são sinônimos. Ser simples é descomplicar, é ajudar, é fazer o que seu coração ou consciência mandam, é ser autêntico, é ser você. Simplório é ser uma versão medíocre de si mesmo, como um robozinho, vivendo no automático.
Viva enquanto a genética ou o acaso permitirem. Viva de um modo simples, descomplicado, feliz. Viva simplesmente tudo o que te importa e quando o acaso te levar, você terá tido uma vida de verdade.





Daniele Van-Lume Simões 
17/10/16





terça-feira, 11 de outubro de 2016

Dia das Crianças


Hoje é dia das crianças. Uma data comercial, sem dúvida, mas prefiro buscar algo de lúdico neste dia em vez de discutir a crise econômica.
Como era bom ser criança... – que difere muito de ser infantil. Tem gente que é infantil até hoje, mesmo de cabelos grisalhos.
Ser criança é ter espontaneidade, alegria nas pequenas coisas e urgência. É até um pouco contraditório, pois a infância é só o começo da nossa vida, mesmo assim tudo torna-se urgente. Urgência em brincar, em se divertir. Urgência para que chegue as férias e em seguida a volta às aulas. Urgência em ver os antigos amigos e fazer novos – que muitas vezes irão nos acompanhar a vida inteira. Urgência em terminar a lição de casa para ver TV ou brincar na rua. Urgência em ser feliz – sempre depois da tarefa feita.
Era uma urgência responsável, muito diferente da urgência que os adultos têm hoje - a ansiedade.
Era uma urgência sadia, feliz. Mas nada impede que cultivemos, mesmo crescidos, essa sensação boa de vontade de viver cada abraço, cada ente querido, cada amigo, cada risada, cada momento feliz. 
Querer ser feliz com urgência é diferente de ansiedade para ser feliz. Primeiro vem a felicidade e depois a urgência em vive-la plenamente. Não o contrário. O contrário é auto-sabotagem.

Portanto, esqueça de se cobrar – deixe a ansiedade em casa. Ela pode até rimar, mas não combina com felicidade. Liberte-se, pelo menos hoje, e viva cada momento urgentemente, vorazmente, como uma criança que está descobrindo o mundo. Porque tal qual como a infância, os dias, sejam eles quais forem, passam voando. E você vai se lembrar, com uma certa nostalgia, somente do que ficou.
E que fiquem coisas boas, espontâneas e urgentes – são essas que, no final das contas, realmente importam.

Daniele Van-Lume Simões
12/10/2015

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Reflexões...

Vale a pena abrir mão da sua vida pessoal por causa da profissional? Ou o contrário?

Ser uma profissional bem sucedida, mas morrer de saudade de casa? Sentir o peito vazio, saudade da família e dos amigos? Ou seria melhor estar do lado dos seus familiares e também infeliz onde você gasta, pelo menos oito horas do seu dia?

Vale a pena não ter filhos com quem você sonhou porque a profissão falou mais alto? Entre alegrar o coração ou o ego? Às vezes, o profissional também alegra o coração, mas não o completa com companheirismo, nem com as primeiras palavras ou com os primeiros passinhos.

Sorte de quem consegue conciliar os dois. Não é só sabedoria, é sorte também. Quantas escolhas como essas temos que fazer na nossa vida e quase sempre ficamos num dilema? Sem saber a hora certa de priorizar um ou outro? Se acertamos na escolha?

Quem nunca precisou escolher entre uma família e uma carreira, entre ir ou ficar, entre viver com simplicidade, mas com as pessoas que amamos ou então ganhar dinheiro e viver sozinho, sinta-se sortudo. Mais ainda, abençoado.

Escolhas assim são difíceis e cruéis. Eu diria que são imorais. Deveriam ser proibidas. 

Abraço


Nunca fui de muitos abraços. Talvez por ser filha única e não ter tido irmãos para abraçar, nem que esses abraços fossem "brigando". Ou talvez por causa dos genes holandeses: distantes, frios e calculistas - haha. Ou uma explicação mais lógica, por causa da educação rígida ou séria dos meus pais, em que abraçar significa demonstrar amor - e com isso, tornar-se frágil diante do outro (um beijo, Freud!). 
Mas a verdade é que acho que nunca fui de muitos abraços porque não gosto de invadir o espaço de ninguém. Sempre tive cuidado com isso. Abraço é uma coisa íntima, é muito contato, muito corpo, muita entrega. É inclusive uma invasão, quando não é recíproco. Até o cheiro de quem você abraça fica em você – imagina se for alguém que você não gosta? – Eca.
Não que eu tenha medo da entrega, só acho que nem todo mundo merece ou quer, de fato, um abraço. Já vi abraços falsos e já os senti para comigo, deixam uma energia ruim, um peso no corpo – deu até vontade de tomar um banho. Esses não valem a pena apenas para ser popular. 
Deixem os abraços para quem realmente importa, para quem você realmente ama, para quem é íntimo seu. Para quem realmente os deseja, quando vindos de você. Deixem os abraços para quem se entrega de verdade, sem falsidade, sem disse-me-disse, sem reservas – para quem vive este momento junto com você. Deixem os abraços para as pessoas especiais na sua vida. Para todas as outras, mantenha a educação. Um aperto de mão e só. É suficiente.
Abraço pouco, muito pouco, menos até do que gostaria, mas abraço intensamente, honestamente, completamente. Abraço a alma e deixo a minha livre, durante a entrega de um abraço verdadeiro.



Sombras e a vida


Hoje, ao voltar de um plantão noturno e cansada de um monte de coisa, leio numa página social que uma amiga, que tem um bebê, comentou que ele descobriu a própria sombra. Foi assim: Ele via a sombra da mão dele, tentava pegar e não conseguia. E por isso sentiu-se frustrado. Claro que ela falou em frustração da forma mais leve que existe, afinal se trata de um bebê. Achei graça da inocência dele. Imaginei aquela mãozinha gordinha, fofinha, tentando pegar algo que existe, mas que é impossível. Ri. Depois, fiquei pensativa.
            Quantas coisas não gostaríamos de pegar, de fazê-las nossas e não podemos? As vimos, mas não podemos pegá-las para si. Coisas materiais mesmo. Sentimos frustração por isso. Mas meu pensamento foi muito mais além de futilidades e objetos. Por entre quantas sombras vivemos?
Quantos sentimentos queremos que permaneçam presos em nossas mãos e
desde pequenos sabemos que isto não é possível? Mas ainda assim insistimos? Parece que não aprendemos a lição. É a nossa sombra. Aquela que vai acompanhar-nos a vida inteira, dependendo da posição, algumas vezes encolhida, quase um ponto no chão, ou então se mostra comprida, larga, ocupando todo o espaço ao redor de nós. Assim são os sentimentos, bons ou ruins. Assim é o amor, assim são as pessoas, assim é a vida. Depende da posição que você está. Depende da posição do sol. Não depende só de você. Depende também da sua boa vontade de olhar para baixo e procurar sua sombra, procurar pela posição certa.
Olhar para baixo não é se auto menosprezar e procurar o pior, e sim olhar para seu passado e verificar os erros cometidos para não mais cometê-los no presente. Olhar para baixo é olhar sua história de vida, cada degrau subido, cada momento de dificuldade e expectativa, e só assim, será possível localizar sua sombra. Se localizar.
            Mas não tente agarrá-la, fazê-la sua, a sombra, assim como as pessoas, devem ser livres. Basta um pôr do sol e nada de sombra. No máximo, algo chamado de réstia. Um protótipo de sombra. O que restou dela.
Não se contente com o resto. O pôr do sol é lindo e necessário, mas no outro dia, se você se posicionar no lugar certo, sua sombra estará lá, ao seu lado, sempre te fazendo companhia.
E lembre-se: deixando-a livre para acompanhar-te pelos caminhos que serão trilhados. Assim como as pessoas que o querem fazer contigo, sejam amigos ou o seu amor. Não tente agarrar sua sombra, será uma enorme frustração. Deixe que elas (as sombras e as pessoas) estejam ao seu lado porque querem estar. E se não estiverem, você não deixará de existir por isso. Um amanhecer e tudo volta aos eixos.

Daniele Van-Lume Simões,

Outubro de 2013


segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Leveza da vida


O título talvez cause estranheza nas pessoas. Especialmente entre aquelas que me conhecem. Não sou o maior exemplo de leveza, mas estou tentando não perder mais meu tempo com coisas que não têm jeito. Percebendo a beleza nas coisas pequenas e principalmente, respeitando quem eu sou, no meu tempo.
Perdemos boa parte das nossas vidas nos preocupando com o que os outros vão pensar, com a conta que esquecemos de pagar, com o trabalho que ficou por fazer. Estou desencanando. Para alguns, amadurecendo.
Levar a vida leve não é ligar o sinal do f***-se para tudo e todos, não. Levar a vida leve é acordar cedo e agradecer pelo dia, em vez de reclamar. É estar parada num engarrafamento, mas se alegrar quando vir uma árvore bonita. É chegar em casa morta de cansaço, mas chegar feliz pois terá sua caminha confortável para dormir - de preferência ao lado do seu amor.

Levar a vida leve é não esquentar tanto com o que não muda - o jeito de algumas pessoas, ou o seu próprio. É não tentar agradar todo mundo, só quem te importa verdadeiramente. É não esquentar se esqueceu o celular. Sinta-se livre uma vez na vida.
Levar a vida leve é comer tapioca com café no final da tarde, assistir sua série favorita pela terceira vez (Alô, Friends!), é comer seu picolé favorito numa segunda-feira – felicidade não tem data marcada.
Levar a vida leve é rir horrores com uma piada boba, é arrumar a casa ouvindo Cotidiano de Chico Buarque, é dormir o final de semana inteirinho e não se cobrar para sair. Seu relaxamento e paz de espírito é mais importante que qualquer balada.
Levar a vida leve é requebrar com o orçamento final do mês, mas se sentir grata por ter um emprego. É fazer uma sopa quentinha num dia frio ou tomar uma gelada na sexta-feira quando chega em casa do trabalho.
Levar a vida leve é assumir somente as suas responsabilidades - não as dos outros, não as do mundo. É fazer caridade. É meditar/orar/rezar e sentir Deus. Em silêncio.
Levar a vida leve é xingar quando for necessário e se sentir leve porque desabafou. É também dar um abraço sem motivo e calar para evitar confusão - nossa, como isso torna a vida mais leve!

Levar a vida leve é parar de se culpar pela distância dos entes queridos e entender que cada um tem seu caminho a seguir. É correr atrás dos seus sonhos, sendo que o maior deles é viver numa praia paradisíaca, cozinhar no seu próprio restaurante rústico de massas e vinhos e dar risada disso. Respirar ar puro, no sonho ou na realidade, isso sim deixa a vida leve.
Tomar um banho cheiroso, tomar um drink enfeitado ou tomar um pouco de juízo. Tudo isso deixa a vida leve, e junto então, é capaz de fazer flutuar.
Levar a vida leve é ser feliz em pequenos momentos do dia - mas todos os dias, pois já se descobriu que a felicidade não é eterna nem duradoura, mas pode ser diária.
Levar a vida leve é assumir quando estiver de mau humor e curtir sua ranzinzisse sozinha, sem incomodar ninguém e sem pressa de ficar legal logo. Afinal, como falei o início, você não precisa agradar todo mundo.
Levar a vida leve é vivê-la do seu jeito - único, recebendo e aceitando pequenos momentos de felicidade diários, mas que alimentam a alma a vida inteira.



Aplicativos mal aplicados



Há muito tempo que ando incomodada com o LinkedIn. Na verdade, não com o LinkedIn em si, mas com uma parte dos usuários. 
Esta ferramenta é utilíssima, inclusive eu mesma posso comprovar: arrumei um emprego numa multinacional americana através dele. Me acharam, me entrevistaram e eu aceitei. Experiência enriquecedora. 
O LinkedIn é uma espécie de Facebook profissional, que você põe (ou deveria por) uma foto séria, descrever suas competências e experiências profissionais e adicionar potenciais colaboradores, seguir empresas, etc. No entanto, como diria um conhecido meu: "O Brasil é um país bom, o que estraga são os brasileiros".
Depois de popularizar-se no Brasil, é um tal de post com frase de auto-ajuda, testinho bobo de matemática, ou pior, se quiser ir pro Canadá escreva "Yes". "Yes, we can". Seria cômico, se não fosse trágico. Pessoas se adicionam, não trocam meia palavra, e ficam lá, constando, colecionando números, sem utilidade nenhuma.
A modinha dos testes matemáticos passou (ainda bem!), mas a nova onda é falar mal de funcionário público.
O desemprego tá foda no mundo todo, a vida não tá fácil pra ninguém, mas acho um absurdo você desdenhar de uma coisa que você não conhece nem vivencia. Vagabundo tem em todo canto, seja na esfera pública ou na iniciativa privada.
Sou funcionária pública federal, com muito orgulho, e trabalho no mínimo 8h por dia, sem contar os cursos que faço para me aperfeiçoar profissionalmente (em menos de um ano, já fiz três - sendo um deles na Johns Hopinks Bloomberg School of Public Health). Tenho uma hora de almoço como todo mundo, e não três como alguns imaginam. Meu salário é bom, mas tive que fazer doutorado pra isso, enquanto um vendedor pode ganhar facilmente o que eu ganho sem ter que estudar no mínimo 12 anos. Vivo participando de reuniões, algumas bem importantes, pois trata-se de definir estratégias e ações de vigilância em saúde, que claro, envolvem dinheiro público. O meu, do seu, do nosso dinheiro que pagamos para o governo como impostos para retornar em assistência em saúde, prevenção de doenças e promoção de qualidade de vida. Uma coisa é você contratar um serviço pra sua casa, outra é para um país inteiro. E não ganho 1 real a mais pelo tamanho da responsabilidade que tenho.
Vejo pessoas no LinkedIn, geralmente da iniciativa privada com escolaridade e formação duvidosas, desdenhando o funcionarismo público, chamando todos de desocupados, e afirmando que só querem mamata e estabilidade. 
Ora, mamata todo mundo quer, nem venha me dizer que não. Quem não quer passar a vida viajando pelo mundo, tomando um bom champanhe e comprando o que quiser?. Mas eu, pelo menos, não tenho isso. Gosto quando meu dia é cheio, produtivo e assim, posso colaborar com meu país. Já a estabilidade que tantos apedrejam é só uma característica do cargo que tenho, não o motivo de eu estar nele. 
Não seria pecado se eu quisesse este cargo pela estabilidade apenas. Do mesmo jeito que alguns montam empresas ou trabalham com vendas apenas visando o lucro - só que neste caso, o cliente dane-se. Mas não foi o meu caso.
Uma pessoa que generaliza todos os funcionários públicos como preguiçosos ou desocupados, numa rede profissional internacional como o LinkedIn, só pode me fazer pensar quão limitada é a capacidade intelectual desta pessoa, inclusive, com falta de vivência e maturidade profissional. Com falta de respeito.
Se quiser ter seu negócio respeitado, deve primeiro respeitar as diversas modalidades de cargo e profissões, independente da iniciativa a que pertença. Quem é profissional de verdade, é em qualquer esfera de atuação - pública ou privada. Competência não nasceu de uma nem de outra.
Lamento muito que uma ferramenta tão útil como o LinkedIn esteja sendo tão mal usada no Brasil, fazendo com que profissionais sérios que estão em busca de novos parceiros e negócios sejam prejudicados devido a um comportamento inadequado e infantil de alguns poucos usuários, que estão ali mais para fazer fofoca, do que gerar riquezas para o país.