sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Promessas para 2017 e a vida real


Todo fim de ano é a mesma coisa. Prometemos fazer uma dieta equilibrada, malhar regularmente, ir ao médico duas vezes ao ano e ao dentista uma vez, pôr em dia os exames, ler dois livros por mês, iniciar aquele hobby que faz brilhar os olhos, fazer mais doações, ser mais paciente, ganhar mais dinheiro, dormir 8h por dia, enfim colocar algumas coisas nos eixos e dar uma guinada na qualidade de vida.
Mas poucos são os que conseguem cumprir todas as promessas. Eu sou uma delas. Prometemos coisas que, muitas vezes, não se encaixam na nossa rotina, seja por falta de tempo ou de vontade mesmo. Prometemos muitas coisas para iniciarem ao mesmo tempo. Prometemos coisas que o acaso ou imprevistos não vão nos deixar cumprir. Prometemos a vida que queríamos ter, mas sabemos que a vida que temos é agora. O amanhã não temos certeza dele. Plantamos para colher os frutos, mas se vier uma geada... Plano B.
Então resolvi fazer diferente: em vez de prometer muitas coisas ao mesmo tempo, vou prometer apenas três e classificá-las de acordo com a dificuldade de realização. Fácil, média e difícil.
Começarei pela fácil: pôr em dia os exames. Na verdade, apenas os de sangue, vejam só, logo eu que sou biomédica! São esses que estão atrasados. Basta um telefonema para marcar, 40 minutos no laboratório e está resolvido. Eu, como profissional de saúde, não posso negligenciar a minha própria - seria muito contraditório. É como um cardiologista obeso e fumante, ou um dentista banguela. Você confia? A sua profissão começa em você e nos seus hábitos, crenças e atitudes. Só assim você poderá estender aos outros.
Depois dos exames feitos, partirei para a média dificuldade: malhar regularmente. Mas não em academia (odeio). Em casa mesmo. Tenho uma esteira e que vou usá-la pelo menos três vezes por semana antes que vire um cabideiro. Sair para caminhar, pode chover. Academia nem pensar, eu não suporto o clima fútil que a grande maioria tem. Já uma esteira em casa, eu posso caminhar até à meia-noite, basta parar com a inércia, por um tênis e ligá-la. 30 minutinhos, 2,5 km e pronto. O coração agradece.
E com essas duas metas sob controle, aí sim partirei para a mais difícil: não, não será dormir 8h por dia, porque essa para mim é impossível, nem levar uma alimentação equilibrada, pois já comecei uma reeducação alimentar a duas semanas e não tenho dificuldade de comer nada. A mais difícil de todas será consumir apenas o necessário. Dei-me prazos para não comprar cosméticos, nem roupas nem sapatos em 2017. Não vou dizer quais, para não passar vergonha depois. Tenho muitos deles e doei vários nesse último mês, que ou já não cabiam ou eu não usava. Liberei espaço na minha vida e no meu armário. E que alívio!
Ainda no quesito difícil, vou comprar para casa apenas o necessário, evitando desperdício de alimentos, de água, de insumos de limpeza. Quantas coisas nós jogamos fora porque estragam. Evitar deixar luzes acesas sem razão e sempre fechar a torneira ou o chuveiro quando não estiver usando. Isso eu já faço na maioria das vezes, mas posso fazer mais e sempre.
Enfim, tentar levar uma vida um pouco mais sustentável - tanto pro meu bolso, quanto e principalmente para o planeta. Acho que esse será o meu maior desafio.
Nessa meta difícil, não tenho intenção de acompanhar modismos pseudocults para aparecer. Não sou vegana/vegetariana, adoro um bom churrasco, mas tenho evitado comprar cosméticos de empresas que testam em animais, por exemplo, ou comer carne todos os dias. São pequenas atitudes que fazem bem pra sua saúde, sua consciência e todos à sua volta. Efeito borboleta.
E por que essa meta difícil? Primeiro porque tenho andado saudosista da minha infância e era uma época que não tínhamos tanta oferta de produtos, mas vivíamos bem e éramos felizes. Viver de uma forma mais leve, consciente e harmônica, esse, sem dúvida, será o desafio do ano. E espero cumpri-lo com louvor. Segundo, porque falamos muito em sustentabilidade, mas praticamos pouco. Só que temos que ser realistas e escolher atitudes que temos como cumprir, senão vira um discurso hipócrita. Não adianta querer fazer tudo ao mesmo tempo. Eu, por exemplo, não tenho como ir para o trabalho de salto, montada na maquiagem e de bicicleta num calor de 30 graus de Brasília. Veja sua realidade e adeque-se em hábitos que podem ser corrigidos ou modificados dentro da sua rotina. Tudo que foge demais da rotina, tende a fracassar e causar frustração. E é essa frustração que convivemos todo final de ano quando nos damos conta que não cumprimos o que prometemos para nossa vida. Esse é o segredo do sucesso no cumprimento das metas.
Mas vamos começar com as dosagens de glicose, colesterol e triglicerídios primeiro... Step by step, like New Kids on the Block (fundo do baú).
E você? Já pensou nas suas metas?

Daniele Van-Lume Simões       30 de dezembro de 2016


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Chega 2018, mas não chega 2017

Quando penso no resumo de 2016, só me vem uma frase na cabeça: Que ano foi esse hein? 
Tantas mortes... Atores, cantores, times de futebol quase inteiros, orquestras inteiras... Até a democracia morreu. E esta última morreu jovem, coitada.
Em 2016, sai o primeiro presidente negro dos Estados Unidos e entra o Trump e seu muro mexicano – algo surreal na época atual. No Brasil, bateram panela sem saber direito por que e agora ganharam de prêmio uma aposentadoria cada vez mais tardia - sem contar a recessão dos salários. Em 2016, teve desastres aéreos em dezembro aos montes, já outros nem tão desastres assim, mas todos fazendo centenas de vítimas.
Heróis morrendo de overdose, como diria o poeta – ou parada cardíaca, como diria o jornal.
Crianças vítimas de guerra, mortas no mar e expostas numa fotografia perturbadora e sem noção (como a maioria das coisas hoje) ou cobertas de poeira e destroços.
Em 2016, ataques terroristas e o povo compartilhando vídeos de decapitações como se fossem em galinhas. Só desgraça e virou comum ler ou assistir notícias desse porte às 7h da manhã. Não choca mais. Nem embrulha mais o estômago. Perdemos a sensibilidade ou a sanidade ou os dois.
Pessoas sem noção dentro e fora do mundo virtual. Seja nas palavras, seja nas atitudes. Em 2016, percebi um saudosismo do passado, quando a vida era mais sustentável mesmo com menos opções. Menos tecnologia, menos carros, menos e-mails (ou sem e-mails), menos celulares, nada de internet. Até menos comida.
Cultura dos orgânicos e brechós tentando ser implantada, quando o consumismo já é intrínseco na veia de todos, um caminho meio que sem volta. Ou tarde demais para voltar. Acordamos tarde para o mal que nos consome. Acaba ficando ridículo essa moda pseudocult da maioria, porque poucos mesmos são os que praticam esse desapego em todos os aspectos da vida.
Vizinhos que não se cumprimentam, pessoas que não sorriem, amigos que não são tão amigos assim. Normal hoje em dia. Não deveria, mas é. Mas aí não foi só em 2016. Já tem umas boas décadas que isso ocorre.
Em 2016, não teve uma música boa, não teve um livro marcante, não teve um filme bom - talvez até tenha tido, mas é uma avalanche de informações constante que depois de 5 segundos já partimos para a próxima e esquecemos o que veio antes. E nada acaba ficando para ser recordado.
Posso estar sendo reducionista, mas a sensação que tenho é que este ano foi contraditório: economicamente, politicamente, culturalmente, temporalmente - sensação de ter sido corrido o tempo todo, mas ter demorado séculos para passar. Quase uma tortura. 2018 chega, mas não chega 2017.
Pessoalmente, para mim, até que foi um ano de conquistas - suadas conquistas. E sou muito grata a Deus por elas. Mas no geral, o que vejo, é que foi um ano de pessoas confusas, protestando, pelo não sei o quê, para conseguir não sei o que lá e chegar a um lugar sabe-se lá onde.
Espero que 2017 traga a luz que 2016 não teve. Que possamos respirar um pouco mais aliviados em meio a tantos percalços - para que menos perdidos, e mais conscientes, consigamos definir o caminho que este país/mundo irá tomar. E que tenhamos o discernimento para escolhermos certo. Ou pelo menos, não permanecermos no erro.

Daniele Van-Lume Simões       28 de dezembro de 2016


Fim de ano


Fim de ano e as coisas parecem ganhar sentido, como nunca ganharam todo o ano. Passamos o ano inteiro trabalhando, nos estressando, correndo, sem saber muito o porquê, mas no fim do ano, quando tudo se desacelera, conseguimos finalmente enxergar todos os feitos, ganhos e perdas. Os erros e acertos. As coisas que mereciam dedicação e que não tiveram e as que não mereciam e perdemos tempo. Reavaliamos nossa vida, nossas atitudes, nossas palavras.
Fim de ano, parece que o tempo passa mais devagar e uma onda de caridade, compreensão, amor e confraternização invade tudo e todos. Todos os seres se abraçam mais, almoçam mais juntos dos entes queridos, se cumprimentam com um sorriso em vez da usual cara amarrada, dá mais gorjetas, compra presentes para crianças pobres. Esse é o ritual de passagem de ano e como todos os povos, nós precisamos de rituais para que consigamos fôlego para mais correria no ano seguinte. Quase uma prova de 100 m rasos. Você corre muito, voando quase e no final, ao cruzar a linha de chegada, tudo se desacelera e você sorri. Lindo isso, mas como somos ingênuos.
Sábio é aquele que consegue viver essa onda de confraternização e amor diariamente, com seus familiares e amigos, sem necessidade da chegada do dia 24 ou 31 de dezembro. Sábio é aquele que sente o tempo passar devagar, porque avalia cada decisão que está prestes a tomar, sem pressa, porque decisões importantes envolvem riscos e outras pessoas. Sábio é aquele que só faz o que pode sem culpa alguma e trabalha no que vale a pena, sem se importar com a opinião alheia ou pressão do sistema. Sábio é aquele que tem certeza que o ritual pode acontecer dentro de nós, todos os dias, quando abrimos os olhos pela manhã. O tempo que necessitamos para renovarmo-nos quem determina é a gente, não o calendário. Sábio é aquele que se deu conta disso – muito antes mesmo da chegada de 2017.

Daniele Van-Lume Simões     28 de dezembro de 2016


sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

A evolução espiritual e a minha tia

Véspera de Natal e todos ficam meio sensíveis e pensativos. Comigo não é diferente.
Hoje vim falar um pouco sobre uma das mulheres mais fortes que conheci - e mais evoluídas também: minha tia de coração Adilma.
Tia Adilma tem uma voz doce e ao mesmo tempo firme e se tem uma das coisas que mais admiro nela é a dedicação que ela tem para com a família.
Filhos, netos, marido, sobrinhos, agregados... Todos dão um sorriso quando lembram dela.
Uma mulher forte, batalhadora, guerreira, que nunca desistiu da sua família, porque nunca desistiu de Deus.
Uma mulher que levou a sério o sacramento do matrimônio, ajudando a todos que precisavam do seu apoio e por amor, sem esperar ou cobrar nada em troca. Cuidou de seus filhos. Cuidou de seus netos. Cuidou de seus sobrinhos. Generosidade.
A vida da minha tia não foi fácil, mas não vim expor seus problemas aqui e sim dizer que admiro muito a forma que os superou. Isso sim é valioso e nos dá uma grande lição.
Espírita praticante, é uma pessoa altruísta, generosa, caridosa e de uma evolução que se eu tiver pelo menos um décimo de sua sabedoria e paciência, posso me considerar realizada como ser humano.
Família a gente não escolhe, mas algumas pessoas escolhemos para admirar e ter como exemplo.
Sempre que me falta a fé ou eu penso em desistir, eu lembro dela e da força que ela teve para manter sua família no caminho do bem. E ganho mais que forças - ganho inspiração.
Você vai me perguntar: então ela é perfeita? Eu vou te responder: claro que não. Mas a diferença dela para uma pessoa mediana é a busca da evolução.. Sempre com uma palavra de carinho, de apoio a quem precisa e sem olhar a quem. Sempre com um sorriso e um conselho sábio. Sempre com uma mensagem de bom dia, transmitida com um "lembrei de você".
Tia Adilma, gostaria que soubesse que és um exemplo de vida pra mim. E que meu querido tio Jorge é um homem de sorte por ter uma companheira como a senhora ao seu lado. És mais que um alicerce, és um espelho para nós, jovens, termos como exemplo de superação, garra, força, amor e principalmente, fé. Sua fé que te salvou, disse Jesus. E que neste Natal e em todos os dias do ano, possamos cultivar a fé em Deus, na vida e principalmente e mais difícil, como a senhora fez - nas pessoas.
Feliz Natal!

Daniele Van-Lume Simões    23 de dezembro de 2016





terça-feira, 20 de dezembro de 2016

O Jejum e a Dieta


           Já fiz os dois. Já sofri nos dois, mas por imaturidade e vou dizer por que. O Jejum não é para trazer sofrimento e sim alívio, para a alma e que é refletido no corpo, que fica mais leve e esguio. Só que quando se é jovem, você se concentra na sua sensação física, na fome, e sofre por isso. Esquece o verdadeiro propósito do jejum. A dieta não, traz sofrimento tanto para o corpo quanto pra alma, pois além de te deixar também concentrada na fome que está sentindo, ela te deixa ansiosa em busca de um bumbum perfeito, uma barriga chapada, um corpo dos sonhos e que leva você a experimentar vários sentimentos negativos: frustração, angústia, inveja, tristeza, cobiça, raiva.
Tanto a dieta quanto o jejum funcionam sob a mesma atitude: privação de alimentos. Mas com fins muito diferentes. Enquanto a dieta tem como centro a vaidade e a busca do corpo perfeito como resultado, o jejum é baseado na purificação da alma e do corpo, visando à evolução como ser humano. Você cuidar da alimentação é extremamente salutar, mas mais salutar ainda é cuidar do espírito. O jejum inclui não só privação de alimentos, mas de palavras. É preciso ouvir sua voz interior.
Quando você jejua e medita/ora/reza, você se conecta com Deus, com aquela força suprema que te faz seguir adiante e permanecer na retidão, independente de qual religião você siga e do nome que você dê. E são muitos: o Arquiteto do Universo, o Criador, Deus, Mãe Natureza, não importa. Quando você jejua, você entende que é preciso olhar para dentro, para ter a luz que tanto almeja. Muito mais do que olhar para fora e ver uma bunda perfeita.
A barriga chapada deixa de fazer sentido no jejum, porque o que você busca é o autoconhecimento e equilíbrio para viver da melhor forma e tomar as melhores decisões. Para ser um ser humano melhor, seja no trabalho, seja na família. Para ter autocontrole físico e emocional.
Quando você jejua, você sente sua natureza humana fortemente, pois ela é falha, faminta, frágil, fora de controle; mas que você, embora não consiga dominar totalmente seu corpo - pois uma hora você vai ter que alimentar-se - você é capaz de dominar suas atitudes e pensamentos. Você é capaz de ter disciplina, de ter fé, de ter foco. Você é capaz de passar um tempo consigo mesmo, para conseguir absorver um pouco do conhecimento Divino.
Assim como existem vários tipos de dietas, também existem vários tipos de jejuns. Não estou escrevendo este texto para indicar algum, nem discorrer sobre eles, pois isso varia muito de cada organismo e de cada fé, mas escrevo para alertar que nossos valores estão errados. Privamos-nos de alimentos para os fins errados.
O Jejum é praticado há milênios, as dietas surgiram há menos de dois séculos. Os antigos sabiam intuitivamente que havia diferença entre eles e muitos livros sagrados, inclusive a Bíblia, fazem menção sobre este ato.
É preciso purificar-se, é preciso meditar, é preciso buscar sempre o equilíbrio, para não perder a sanidade num mundo de valores invertidos, num mundo violento e louco que estamos vivendo. Num mundo com um turbilhão de informações vazias, é preciso filtrar o que entra em nossa mente. É preciso olhar para dentro, antes de olhar para o lado e apontar o dedo. É preciso buscar sua verdade e não a verdade que te impõem. É preciso, cada vez mais, calar, pois muitas desavenças têm ocorrido devido à liberdade concedida às palavras duras. Tornou-se comum ofender, revidar, agredir.
Não sou o poço da evolução e muitas vezes, revido, respondo quem me ofende. Ou me entrego à gula, muitas vezes levada por sentimentos nada saudáveis, como ansiedade, por exemplo. Mas não posso achar que isso é normal. Eu erro tanto quanto aquele que começou a ofender. Eu erro porque sou humana e tenho consciência disso.
E por ter essa consciência, é que buscar a evolução deve ser uma atitude constante, com seu início quando acordamos para o que realmente importa, mas que não deve ter fim. Devemos buscar melhorar sempre, não por medos impostos por determinadas doutrinas, como purgatório, inferno, mas por nós mesmos e nossa consciência e felicidade.
Só buscando e vivenciando o equilíbrio de nossos pensamentos e ações, nem que seja por algumas horas, é que podemos experimentar a verdadeira felicidade e conhecer a nossa verdade.

Daniele van-Lume Simões   20 de dezembro de 2016

domingo, 18 de dezembro de 2016

A Sabedoria de Rubem Alves


Tenho lido muitas crônicas ultimamente e sempre volto a Rubem Alves. Se pudesse pedir três coisas na vida, uma delas seria viver um décimo da leveza de sua escrita. Seus textos são leves e profundos, gostosos de ler, tanto quanto ouvir uma canção de ninar.
Rubem Alves era gente como a gente, nasceu numa cidade de interior lá em Minas Gerais, teve traumas de infância, tomou café coado, comeu pão de queijo, se apaixonou, casou e teve filhos, estudou, virou professor universitário, gostava de crianças, mas não perdia a humildade de apreciar as coisas pequenas e valiosas da vida. Seus textos revelam isso. Uma sabedoria simples e intensa, na mesma proporção.
Rubem Alves entendeu o que era a vida e passou a vivê-la com humor, com livros e rodeado de crianças. Rubem Alves sabia quem era Deus, pois comia fruta do pé. Ouvia pássaros. Contemplava o pôr do sol. Rubem Alves, com todos os títulos e pompas que lhe foram concedidos, sabia o que importava na vida. E teve a generosidade de compartilhar conosco esta descoberta através dos textos.
Por isso eu sou sua fã.

Daniele Van-Lume Simões    18 de dezembro de 2016


Homanegem ao cadáver desconhecido e o machismo

Lendo ontem um livro de crônicas de uma pessoa que adoro, me deparei com um texto que me deixou inquieta e quase tirou meu sono. Era um texto datado de 1995 e que havia uma parte que falava sobre pessoas que estão enriquecendo se utilizando de processos milionários e se fazendo de vítimas. Até aí, tudo bem.
Concordo que algumas pessoas processam outras pessoas ou empresas para ganhar um jabá fácil sobre algo que pode até ter sido irritante, mas não gerou traumas algum. Mas nesse texto havia um exemplo infeliz: funcionárias de uma empresa ganharam uma indenização milionária pois denunciaram o dono que se aproveitava delas sexualmente, seja tocando os seios sem permissão, seja falando grosserias e outras formas de perversão. No texto, dizia que havia coisas mais importantes para serem julgadas.
Pois aí eu discordei: se ganharam uma indenização milionária, eu acho é pouco. Deviam ganhar muito mais, embora moral e ética não estejam à venda, muito menos a intromissão sem a sua permissão no seu corpo.
Mas para a época era algo até aceitável, não havia grupos a favor de minorias, das vozes caladas por medo, vergonha ou humilhação - e aí entram as vítimas de racismo, homofobia e claro a mais antiga de todas, a cultura do estupro.
Nessa época, anos noventa, o personagem negro era sempre pobre ou alcoolista, o gay era efeminado e aidético e a mulher, ou era de Atenas ou era Geni. Não havia meio termo. As de Atenas passavam desapercebidas pois sequer tinham o direito de passar sozinhas. As demais, as normais, eram Genis que deviam ouvir caladas ameaças e grosserias ou até serem violentadas, caso estivessem usando uma roupa curta - claro, se usou é porque queria isso. Uma atrocidade. Ainda bem que, mesmo lentamente, isso vem mudando.
O estupro não precisa ser físico, pode ser verbal, com uma frase grosseira de cunho sexual quando você passa na rua correndo para não perder uma consulta médica ou ainda pode ser moral, quando seu superior ameaça demiti-la caso não faça o que ele pediu, ignorando sua cólica, seu filho pequeno na escola, sua vida "se vira nos 30" de dona-de-casa-profissional-esposa-mãe-filha. Enquanto seu colega na mesma função bate o ponto religiosamente às 17:30h.
Tudo isso vem do machismo, dessa cultura multi lados (oriente e ocidente) que ainda subjugam a mulher como ser inferior, sem opinião, sem vontade, sem razão, sem méritos. Sem desejos. Sem respeito. Sem vida. Violando não só o corpo, mas a honra, a integridade e a alma.
Pois bem, ontem estava sem computador pensando na crônica acima citada e lembrei, do nada, de algo que me marcou durante a faculdade: as aulas de anatomia humana.
Era um ambiente inóspito, com mesas de alumínio frias, corpos roxos, desconhecidos, olhos parecendo de vidro, um cheiro horrível e ao mesmo tempo fascinante. Era a morte servindo à vida. E placas, muitas placas chamadas "Homenagem ao cadáver desconhecido". Um dia me pus a lê-las e havia vários agradecimentos ao cadáver por ter servido à ciência e à sabedoria e à formação de profissionais de saúde para melhoria da vida humana. Uma das placas dizia até que sem eles, o conhecimento sobre o corpo humano, na sua forma mais fiel, não existiria e que esta era a forma mais nobre de ser lembrado.
Aquilo me tocou e passei a não achar mais graça das brincadeiras imaturas de estudantes de primeiro período sobre órgãos sexuais ou qualquer conotação depreciativa a estes corpos. Talvez a brincadeira acontecesse para tornar aquele momento um pouco mais leve, já que era um choque de realidade e muitos ali sequer haviam visto um morto, que dirá por dentro, dissecado, cortado. Mas parei de rir sobre o assunto.
E hoje me pergunto: que sociedade contraditória e louca é essa que vivemos em que um corpo de cadáver desconhecido é extremamente (e merecidamente) respeitado, honrado com placas e missas de agradecimento ao final dos cursos, enquanto que as mulheres que convivem conosco, em pleno século XXI, ainda precisam se defender de agressões à sua honra e ao seu corpo enquanto vivas? E provarem que a culpa não é, nunca foi e nunca será delas? Para mim é um grande paradoxo.
Vou morrer sem entender isto.

Daniele Van-Lume Simões   18 de dezembro de 2016


O meu banheiro e Rodin


Poucos lugares me fazem sentir segura. Um deles, talvez o principal, é o meu banheiro. Lá, depois que passo a chave, me sinto livre de ter pressa, de ser chamada, de ser incomodada, porque se tem algo sagrado para as pessoas é quando ela vai ao seu próprio banheiro. 
No seu banheiro, ninguém ousa bater na porta e perguntar: está tudo bem? - Diferente do que acontece quando você vai ao banheiro na casa de alguém e demora mais que 5 minutos lá dentro. Te incomodam. Às vezes, você só quer um pouco de silêncio por perto. Ou retocar a maquiagem. Ou chorar. Ou, em último caso, fazer suas necessidades mesmo.
No seu banheiro não. Mesmo com uma visita te esperando na sala, ela fica lá, sentada, vendo tv, esperando a hora que você vai sair do seu banheiro, sem jamais pensar em te incomodar. Mesmo que você fique por lá meia hora seguida no mais absoluto silêncio.
O seu banheiro é sagrado, quase um templo, em que lá, você pode despir-se de qualquer tipo de artifícios - seja roupa, maquiagem ou sentimentos. Lá pode se demorar quanto quiser, pode ler um livro, responder e-mails (imagina seu chefe descobrindo que aquele e-mail importante foi escrito no intervalo entre suas necessidades e sua higienização?), pode se olhar no fundo dos seus próprios olhos, pode chorar, cantar, rir sozinho, pode ser você mesmo. Lá você está a salvo.
Quando passo a chave na porta, parece que abri um portal mágico e que ninguém vai me descobrir. Quando sinto os cheiros dos meus géis de banho, sinto prazer nas pequenas coisas, como sentir cheiros. E prazer nas grandes coisas: sentir-me limpa - verdadeiramente limpa, por dentro e por fora. Um bom banho com água morna e algo cheiroso faz milagres pra alma.
Quando estou no meu banheiro, me olho nos olhos através de um espelho, vejo aquela ruga que insiste em fincar, vejo meu corpo já não tão jovem, vejo um cabelo branco despontando no alto da cabeça, até posso ver uma lágrima escorrer, mas não me importo se estou apresentável. Ali, eu sou eu, sem artifícios. Ali eu posso me encarar de frente. Principalmente depois de um bom demaquilante.
Até acho que a famosa escultura "O Pensador" de Rodin foi simbolizando a sabedoria no banheiro. E talvez seja um sacrilégio expô-la aos olhos de milhares de curiosos num momento tão íntimo. Vai saber.
Mas não se iluda, não é qualquer banheiro, é no seu e somente seu banheiro que você encontra a paz, o alívio e o silêncio. O seu banheiro é essencial na sua sobrevivência e creia, meu amigo, que fazer as necessidades talvez fique num dos últimos lugares nessa luta que se chama vida.

Daniele Van-Lume Simões   18 de dezembro de 2016

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Saber falar, saber ouvir e o respeito à plateia


Se tem uma coisa que aprendi dando aulas foi saber se colocar. E se colocar envolve dois verbos principais: ouvir e falar.
Falar com firmeza, porém sem grosseria. Respeitar o ouvinte, independente do seu conhecimento prévio sobre o tema. Ser firme não é ser duro ou arrogante, embora frequentemente as pessoas achem que são sinônimos e se comportam de uma forma agressiva, para se defender de um possível "ataque" que nunca existirá. Discutir um tema não é atacar - ou pelo menos não deveria ser.
Ser firme é manter o tom de voz coerente com sua educação. E o limite entre a firmeza e grosseria, baseado nesse tom é muito tênue.
Pois bem, mais do que saber falar, eu aprendi, dando aulas, a saber ouvir.
Ouvir a dúvida, por mais banal que pareça para alguns, deve-se ter respeito por ela, pois se não existissem dúvidas, não haveriam certezas nem tampouco conhecimento gerado.
É a maçã que caiu do pé e por conta de uma dúvida, formulou-se a lei da gravidade.
Saber ouvir a angústia numa pergunta de um aluno, ou até de um paciente, na época que eu dava plantão, quando não entendia o resultado do exame. Isso é tão importante quanto saber falar eloquentemente. Saber ouvir alguém mais velho e com mais experiência e refletir sobre o que foi dito. Saber ouvir com senso crítico e não tomar tudo por verdades absolutas. Quantas teorias não caíram por terra? Kepler que o diga. Com perdão do trocadilho.
Aí mora o grande problema no Brasil: o senso crítico é visto sempre da pior forma possível, como uma espécie de desmerecimento - seja da fala, seja da pergunta, seja da resposta. Mas pior ainda quando é da pergunta.
Criticar não é por defeitos, é discutir o tema para melhor entendimento e elucidação de questões que insistem em aparecer e que não dá para encobrir com uma manta velha. Criticar não é menosprezar o trabalho de ninguém, é tentar melhorá-lo, é propor ideias e mesmo que falhas sejam apontadas, estas devem ser apontadas para serem corrigidas. O quanto antes.
O que isso tem a ver com o respeito à plateia? Tudo. Uma plateia que não é respeitada por alguém quando pergunta algo, ou é desmerecida na sua formação/composição aí é que deve sim se impor. Deve sim criticar. Deve sim falar para ser ouvida. Se não houvesse uma plateia, sua fala seria inútil. Como alguém ousa desmerecer a razão de sua fala?
Uma pessoa que desmerece uma plateia não deveria ter o direito de abrir a boca, pois não sabe ouvir. O pilar da comunicação é o dueto saber ouvir/saber falar e só o equilíbrio entre esses dois saberes - interlocutor e a plateia como uma simbiose - é que faz uma discussão ser frutífera, sem ofensas, ânimos exaltados ou pior, a perda da razão - de qualquer que seja a parte. Essa simbiose diplomática é que faz com que todos os envolvidos sejam respeitados, independente se o indivíduo está sentado numa cadeira como espectador ou em cima de um palco, com todas as luzes voltadas para ele.

Daniele Van-Lume Simões   14 de dezembro de 2016


terça-feira, 13 de dezembro de 2016

A terceira lei de Newton e o meu banheiro


Vou avisando que esse é um momento desabafo - crônica - relato:
Olha, uma das coisas mais difíceis na face da terra (de marte, de vênus, de plutão) é lidar com vizinhos. Ainda mais em edifícios.
Mudei para Brasília há pouco menos de um ano e desde então estava tudo ok. Apartamento ótimo, espaçoso, limpo, com gesso decorativo no teto, uma beleza, até que, um belo dia, acordo às 8h da manhã com uma furadeira bem em cima do meu juízo/teto. Isso sem nenhum comunicado de início de reforma. Se não por obrigação, que fosse por educação. Imagina se eu fosse cardíaca?
Até aí tudo bem (quer dizer, tudo péssimo, mas fazer o quê), era o vizinho de cima fazendo uma reforma porque vai casar e morar no dito apê herdado do avô vivo. Soube que ele vai levar as bolas de gude que jogava no tapete também.
Depois de uns três meses dormindo com o celular no silencioso, já que a furadeira era mais pontual que relógio Cartier, eis que recebemos o comunicado que o vizinho de cima iria precisar fazer uma interferência no apartamento dele através do nosso banheiro. Sim, nosso banheiro.
Através no sentido de atravessar mesmo. Quebrar o gesso, a laje, para ter acesso ao encanamento. E como bons vizinhos solidários que somos (e um pouco coagidos com o síndico e o dono do apartamento que alugamos terem autorizado), deixamos. Ai se arrependimento matasse... Eu seria uma serial killer. Juro.
Abriram um buraco para deslocar uma privada de lugar, num encanamento de um edifício velho e claro, como tudo no Brasil é feito nas coxas, não impermeabilizaram o negócio direito. Só que não informaram ao síndico, nem ao dono, só à gente. Tudo na moita.
Resultado: Mofou o teto do meu banheiro, reclamei. Arrumaram e disseram que não sabiam por que tinha mofado. Oi?! Uma semana depois, há uma infiltração na parede do meu quarto com um cheiro de urubu podre, claro, já que ela tem ligação direta com o banheiro deles e pelo que desce no cano – e pelo tamanho da barriga do inquilino, não deve ser pouca coisa.
Então, em vez de usar desodorante na axila, comecei a usar na parede do quarto... Fora o mofo no teto do banheiro, ao qual sou extremamente alérgica, e que continua lá - firme, forte e cada vez maior, me fazendo sufocar a cada banho mais demorado (sorry, ambientalistas), mas banho demorado uma vez ou outra é tudo.
Fizemos outra queixa, dessa vez direto com o síndico e que nos prometeu providências urgentes. 72h do mais absoluto silêncio.
E hoje, cheguei às 10h da manhã no trabalho, sabe por que? Porque primeiro chegou o síndico mesmo na hora que eu ia tomar banho para vir ao trabalho, olhou, olhou e procurou um defeito no nosso apartamento para arrumar (ai, que schopenhauer puro!). Ok, arrumaríamos. Fui tomar banho...
Depois chegou o inquilino do andar superior causador do transtorno para ver se era verdade ou mentira o que falávamos. Depois chegaram os dois juntos, inquilino e síndico. Nossa, quase os convidei para uma xícara de café e um bolo de fubá. E eu só querendo me arrumar para trabalhar.
Até que foi prometida uma solução (sem prazos, claro) e meu marido disse: Não seria bom olhar no apartamento de cima também?
Aí, nosso síndico responde ironicamente, com a voz da experiência de que sabe tudo e que somos dois moleques: - Não precisa, lá tem dois engenheiros (que na minha opinião não devem valer meio, pois fizeram uma cagada mesmo) e o problema é aqui no seu apartamento.
Nessa hora, você me pergunta o que Newton tem a ver com tudo isso.
Nessa hora incorporei Newton, Pitágoras, Aristóteles, Hawking e todos os matemáticos possíveis e imagináveis e disse: "Meu querido, você conhece a terceira lei de Newton? Ação e Reação? Pois bem, aqui é a Reação! Que tal dar uma olhada no que está causando isso? Na Ação?".
Cri Cri Cri...
Nunca pensei que um dia fosse aplicar a terceira Lei de Newton na vida, ainda mais para falar do meu banheiro. E só não aplico a lei da pomba (cagando e voando) porque o banheiro de baixo é o meu...
É não faltem às aulas de física, caso contrário podem cagar na sua cabeça quando você abrir a boca - literalmente.

domingo, 11 de dezembro de 2016

A necessidade da reflexão


Sinto necessidade de afastar-me. De algumas pessoas, talvez, de algumas situações também, mas principalmente de mim mesma.
Afastar-me de mim e ver de longe o que tem valido à pena na minha vida. Afastar-me de mim e ver quantas escolhas fiz na vida e quantas acertei.
Afastar-me de mim mesma para que eu possa pensar e chegar à alguma conclusão - mais ainda, atitude.
Anulei-me muito nos últimos anos. Anulei minha paixão por dança, por língua italiana, por literatura inglesa. Anulei minha paixão por estar só - é isso é o mais sufocante de tudo - conseguir estar só com você mesma com tantas demandas pessoais e profissionais.
Lembro que uma das coisas que mais amava fazer era ir ao mercado na sexta feira, comprar um vinho mediano (pois ganhava mal como estudante de pós) e assistir filmes cabeça sozinha no meu quarto, meu refúgio por longos 30 anos. My cave.
Ali, eu era eu mesma, podia dormir e acordar a hora que quisesse, podia ler, escrever, chorar ou rir de alguma cena de filme. Podia ter minha dor de cotovelo em paz, dor de cotovelo da vida, que faz a gente repensar as escolhas. Sem ter que dar explicação alguma a alguém.
Hoje, sinto que preciso me afastar, mas as pessoas não entendem. Preciso que minha intimidade seja só minha e que eu volte a ter a liberdade de escrever, de ler, de expressar o que eu quiser. Ser livre. Cansada de amarras, de pensamentos machistas, de brincadeiras de mau gosto, de violência contra a figura da mulher. Cansada de egoísmo, grosseria e impaciência - essa bolha prestes a explodir que o mundo se transformou.
Não quero me afastar dos amigos, só quero falar um pouco menos de mim e ouvir mais. Quero me afastar das obrigações domésticas e ser livre para dormir, acordar e comer na hora que quiser e não na hora que dois têm que fazer. Quero poder expressar-me! E ser respeitada por isso.
Quero curtir minha dor de cotovelo pelo livro que li, pelo filme que vi, sem dar maiores explicações.
Quero ter minha memória preservada e não me anular para satisfazer o ego de ninguém.
É minha história. E é minha, só minha. Tudo o que passei ninguém saberá e o que contei, me arrependo amargamente, pois o mundo está cheio de falsos juízes moralistas para apontar o dedo na sua cara, quando o que você só precisa é de um abraço sincero e uma frase de que tudo vai ser melhor a partir de agora.
Quero fazer exercício, quero beber menos e comer menos ainda. Cansada de me entupir de cafeína para meu dia ser suportável.
Quero, enfim, ser uma garota normal, que merece respeito, que tem opiniões, necessidades e um coração de manteiga. Quero ser a mulher que sempre fui até pouco tempo atrás: vaidosa, encantadora, meiga, culta e um pouco braba - porque odeio hipocrisia. E oh, cheinha de defeitos.
Quero ser lembrada como alguém que fez a diferença porque ensinou algo a alguém e não por ser alguém desprezível ou arrogante.
Espero afastar-me um pouco de mim, para que eu consiga colocar um pouco de ordem nesse caos chamado big bang pessoal. E assim, orbitar entre as pessoas que amo e ser vista exatamente como sou, como um corpo celeste que encontrou seu equilíbrio, sua verdadeira órbita, sem desestabilizar a órbita de ninguém.

Daniele Van-Lume 11/12/16


sábado, 10 de dezembro de 2016

O plágio e a internet

Quem me conhece bem sabe que escrevo há uns 15 anos, mas que nunca publiquei nada... Até começar meu blog em setembro deste ano.
O que era para ser um blog pessoal acabou transformando-se em algo maior, com cerca de dois mil acessos em 12 países em menos de dois meses.
Talvez tantos acessos tenham uma razão: escrevo o que acredito. Certo ou errado ou neutro, não importa. Escrevo a mim mesma.
São textos que nascem de parto normal, de acordo com a minha inspiração, que funciona como uma oxitocina para que as palavras venham ao mundo da forma mais visceral e única possível. Gritam em silêncio, porque são escritas - mas gritam.
No entanto, dia desses, comentei num blog que sempre acompanho uma bobagem qualquer e junto com meu comentário, postei o link para o meu blog.
E não é que coincidentemente ou não, uma das pessoas deste blog começou a filosofar toda semana sobre a vida,  escrevendo textos bem parecidos com os meus?
Mesmas temáticas, mesmo formato, com figuras nos textos, mesmos termos usados e até mesmas conclusões.
Incrível não?
Não.
Inspirar é diferente de plagiar. Não sei até que ponto houve um plágio, mas é no mínimo esquisito alguém que você não conhece, que não é da sua família, que mora em outra região com costumes diferentes dos seus, escrever sobre o mesmo tema num intervalo de tempo tão curto entre o meu texto e o dela.
Nem relógio suíço tem tanta sincronia!
Mas como diziam que na TV nada se cria, tudo se copia, estou começando a achar que o ditado vale também para o mundo cibernético. Que pena.
Mas não se esqueçam de uma coisa: Originalidade é algo que é intrínseco a cada ser - e isso sim é incopiavel (...);



quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

O romantismo e o casamento


Abrir a porta do carro.
Usar palavras gentis.
Levar pra jantar.
Elogiar o cabelo ou o vestido.
Flores.
Declarações e bilhetinhos inusitados.
Tanta coisa faz parte do início. Ah, mas por que o tempo - esse bendito - faz com que tudo mude?
Mude a nós mesmos e por isso sabotamos, mesmo sem querer, o relacionamento? A ponto de torná-lo maçante?
Depois de um tempo, a gentileza já não é tanta. A paciência também não. Às vezes, nenhuma e como é ruim. Respeito... Cada vez mais raro.
O eu te amo, muitas vezes, se transforma em lave a louça.
As palavras gentis são substituídas na rotina por reclamações - do trânsito, da política, do calor, da sua tpm, do nada ou de tudo. Virou habituè.
Levar pra jantar num restaurante bonito vira pedir pizza em casa. Não que seja ruim, mas não é a mesma coisa. Além do que engorda. Nem as velinhas que estão na mesa são acesas mais. Daqui a pouco está comendo pizza com ketchup, em vez de um bom azeite. Divórcio litigioso isso.
Flores, até o noivado. Ou as últimas que você viu foram seu buquê.
Bilhetes passam a conter códigos de barras, listas de mercado ou um telefone que você não sabe se é da água ou do gás ou do eletricista. Ou da farmácia. Ou da mega-sena.
E assim, o romantismo mingua. O casamento morga. O respeito agoniza. Respeito pelo que um dia foi feito por você e não é feito mais. Respeito pelo "felizes para sempre", cadê?
Só resta parar um tempo, silenciar, pesar tudo, até os gramas de cada memória boa e promessa de felicidade e ver se ainda vale a pena - quando desconsiderar as promessas.
E se ainda valer, renove-se. Recomece. Cuide-se. Faça sua parte, antes de exigir qualquer coisa do outro. Respire. Mude suas atitudes, gestos, palavras. Use da gentileza. E do silêncio. Esses dois juntos e não teríamos tido uma só guerra no mundo.
Casamento deveria vir com um balão de oxigênio acoplado e um cronômetro, para respirarmos fundo e contarmos até dez. Mas não.
Só vem com sonhos, muitos sonhos e uma ansiedade louca de fazer dar certo.
Mesmo com a louça por lavar e o romantismo precisando de um desfibrilador para reanimar-se.
Não desista. Lute. Não é fácil. Mas quando acertamos, nem que seja no recadinho de amor deixado da geladeira - antes da lista do mercado, vemos que vale a pena ter um companheiro ao lado para partilhar a vida, a louça, a pizza embaixo da coberta, o código de barras para ser pago e que a sensação de que você não jogou a toalha no primeiro empecilho faz tudo valer a pena. Se valer a pena, continue. Keep calm and go on. O caminho é longo.
Por isso, merecemos um brinde e claro, flores.

Daniele Van-Lume Simões   08 de dezembro de 2016



A essência e os vidros


Essência. Nome que quando dito no dia a dia lembra perfume. Algo externo, agradável de sentir. Mas não, não é externo. O perfume fica dentro de um vidro, preso e é liberado quando queremos senti-lo.
Não seja o vidro, não se limite.
A essência é aquilo que faz seu coração aquecer, vibrar, motiva você a acordar de manhã e dá sentido à sua vida. E tudo isso só depende de uma única pessoa - você mesmo. Respeite-se e não aceite que não o façam.
Essência é aquilo que suprimimos para nos adequar não à uma sociedade criada por quem não suprimiu sua essência. Pelo contrário, foi por quem a impôs como regra aos demais.
Libertar a sua essência não é impô-la aos demais. É ser leve. Serei cada dia mais leve! Prometi-me este mês sê-lo para a vida toda, não apenas para o ano que vem.
Voltar a escrever foi a primeira coisa que pus em prática. Estudar mais sobre vinhos será a próxima. Sair para dançar, emagrecer tudo o que engordei nos últimos dois anos, viajar muito mais, fazer minhas unhas toda semana, ler um livro por mês, fazer exercício físico, escutar música todo dia de manhã... Enfim, ser leve. Meu casamento agradece. Meus amigos agradecem. Essa sou eu e foi por essa que meu marido se apaixonou. Foi essa que os amigos ligavam para conversar bobagem ou algo inteligente, porque tinha humor. A verdadeira Daniele.
Essência é aquilo que matamos, anulamos, quando a autoestima não anda nos estimando tanto assim ou quando não sabemos que decisão tomar. E a primeira de todas é cuidar de si.
Anular sua essência é você fingir que gosta de algo - música, prato, bebida, hobby - só pra agradar alguém ou manter uma relação falida. Liberte-se! Fique somente no que acredita. Cuide-se, para só então cuidar dos seus.
Lembre-se, se apaixonaram, se encantaram pela sua essência, por que querem matá-la? Por que você repete o erro e alimenta esse ciclo? E parece um serial killer de essências alheias, tentando modificar as pessoas que você admirou justamente porque as conheceu como são?
Não esqueça seu RG quando sair de casa e nem a sua essência quando sair pra vida. Respeite a essência dos outros. Arrisque-se no que ama e acredita verdadeiramente. Tenha causas. Lute por elas. Posicione-se. Não aceite humilhações pelo que você é, gosta ou sente.
A essência vem de dentro, mas ao contrário do perfume, não deveria ficar presa num vidro.

Daniele Van-Lume Simões    08 de dezembro de 2016


Meu codinome beija-flor


Quase ninguém sabe, mas eu tenho um codinome, talvez um alter ego. Escrevo textos polêmicos, às vezes, e sou assim, intensa. Me protejo neste codinome.
Muitas vezes quis ir embora, bater a porta, me atirar no mundo. Ir para algum lugar que o idioma fosse algo mais próximo de grego com a comida mais próxima da Itália. Não entender o que os outros falam pode ser desesperador, mas também libertador. Você não precisa se fazer entender - e é aí que mora a mais genuína e verdadeira liberdade.
Quis ir-me embora para Pasárgada inúmeras vezes, principalmente quando vejo coisas que não queria ter visto, passo por situações que não queria ter passado ou fiz algo que não quis ter feito - como magoar alguém que gosto, por exemplo. Mas isto é o mundo ideal, é a Parságada que não existe, não é a Grécia com uma bela pizza de muçarela... Porque aqui, na real, as coisas são muito mais complexas e difíceis do que podíamos imaginar. Mais do que fazer caligrafia do alfabeto grego de trás pra frente.
Então, minha Parságada tornou-se não um lugar físico, mas um lugar que me transporto, me fecho, me protejo, através das letras, das palavras escritas. Das minhas - e tão minhas! - crônicas. Tão minhas e tão suas, que as lê - na mesma proporção. Palavras silenciosas, mas cortantes. Profundas muitas vezes mais que um grito ou uma lágrima. Minha Parságada existe em mim.
Na minha Parságada, sou livre. De amarras, preconceitos, de scarpins, de regras - seja na comida, na bebida, no palavrão ou na maquiagem cor bege claro com contornos escuros e batom nude cor de nada.
Blah. Que tédio do mundo, às vezes. Então eu fujo para lá. Ou melhor, para cá. E escrevo, escrevo, escrevo... Até o sono vir ou a inspiração acabar. Até ficar saciada em fugir para minha Parságada particular.
E da Luz, por razões mais óbvias: meu sobrenome Van Lume significa isso. E é como se sempre houvesse uma luz no fim do túnel - e há. Em Parságada ou aqui, agora, na realidade.
Parságada da Luz. Este é meu codinome beija-flor.

Daniele Van-Lume Simões/Parságada da Luz (07 de dezembro de 2016)


Pensamentos soltos, traduzidos em palavras

Pobre daquele que é insensível às dores humanas. Pensa que é forte mas, no fundo, é apenas mesquinho (Parságada da Luz em 07 de dezembro de 2016).

Essa semana vou postar sobre minha experiência no Morro do Alemão e o SUS que eu acredito. Sim, ele existe e é possível!


sábado, 3 de dezembro de 2016

A fuleirice e as amizades


Começo explicando que fuleirice nada tem a ver com fuleiragem. Fuleiragem é quando você quer sacanear alguém, fuleirice é o que ocorre na vida, cotidianamente, em várias situações, principalmente nas amizades. É um afastamento natural.
Pois bem, às vezes é preciso a distância para que a fuleirice venha à tona e seja revelada. Essa semana recebi notícias de três amigas muito queridas que há dois anos quase não via ou conversava. E do nada. E claro, elas me chamaram de fuleira. Só que não se esqueçam que a fuleirice é uma via de mão dupla, ao contrário da fuleiragem. O afastamento foi bilateral.
Quando morava em Recife, tentei algumas vezes manter contato, marcar saídas ou almoço e elas também, mas que nunca davam certo. Seja porque acontecia algum imprevisto, seja por pura acomodação de saber que aquela pessoa estaria lá a poucos quilômetros de distância, seja por nada. Simplesmente deixamos de nos ver e nos afastamos.
E a vida é assim... Vamos nos afastando de pessoas queridas, elas vão deixando de fazer parte da nossa rotina, até que o contato se extingue. E não é por maldade, é por inércia – de ambas as partes. E quando vemos, casamos, mudamos de estado, mudamos de emprego, engravidamos, sem que elas participem disso. Mas o carinho continua ali, latente, só esperando o acaso acordá-lo.
Tem quase um ano que moro em Brasília e só agora elas deram por minha falta. Chega levei um susto. Mas é bom que essas coisas aconteçam porque repensamos muita coisa. Repensei a importância que cada pessoa tinha e ainda tem na minha vida, repensei que a vida é muito dinâmica e que o limite entre perder o contato definitivamente ou apenas se afastar por um tempo é muito tênue. Repensei que não devo me culpar por isso, pois do mesmo jeito que eu tinha o telefone de todas, elas também tinham o meu – e que por sinal hoje é outro e ninguém sabia disso. E principalmente, repensei que o meu maior medo é me dar falta de alguém e ver que foi definitivo. A única coisa definitiva na vida é a morte.
Por isso, meus caros, não tenham orgulho. Se alguém que foi um grande amigo seu se der por sua falta, sinta-se feliz, abrace o contato, retome, recomece. Dê uma chance, mesmo com esse vácuo, seja de meses ou até de anos.
A vida nos dá a chance todo dia de recomeçar, seja com novas ou velhas amizades. E por isso hoje eu brindo o recomeço dessas três amizades que foram e ainda são muito importantes para mim.
Daniele Van-Lume Simões    03/12/16




Contradições da vida


Isto talvez não seja uma crônica. Seja um desabafo. E vou fazer exatamente isso: desabafar. Eu não só mereço, como preciso.
Não quero fazer deste blog o muro das lamentações, mas que semana contraditória eu tive. Cheia de altos e baixos, com felicidade e tristeza nas mesmas proporções.
A vida é tão dinâmica, mas parece que às vezes vai nos engolir, numa roda vida sem fim. Cansaço.
Tive uma semana gratificante. Participei de um evento científico - que junto com os vinhos – é uma grande paixão.
Lá estavam antigos professores do doutorado, pesquisadores renomados, gente da nata da cadeia científica no Brasil e no mundo, que eu só conhecia de artigos em renomadas revistas e adivinhem só: eu de avaliadora dos projetos deles.
Nossa, por mais que eu me sinta essa coca cola toda, tenho consciência que tenho muito arroz com feijão pra comer cientificamente falando. Mas estava lá, tentando agregar meu conhecimento ao projeto deles, propondo soluções e estratégias, metendo o bedelho e dando opiniões. Foi um enorme aprendizado. Acho que de ambas as partes. Mas principalmente da minha.
Vi que ninguém sabe tudo, por mais que o sobrenome diga muita coisa e tenha muitas publicações. Vi que eu sei alguma coisa e que sou respeitada por isso, e que esses 14 anos de pesquisa me fizeram melhor hoje, profissionalmente e pessoalmente.
Vi que muitas vezes o ego atrapalha e achei graça disso em vez de me irritar profundamente. Vi que no final de tudo, pessoas que admiro demais vieram me parabenizar pela minha formação completa e que foi um dos momentos mais gratificantes da minha vida. 
Vi que cada noite mal dormida estudando, cada prova que fiz, cada trabalho em grupo, cada escolha, cada experimento que deu errado, cada vez que perdi minha tarde de domingo num laboratório frio e branco, cada vez que me desesperei com prazos e cada aperto de grana porque era bolsista valeram a pena.
Pela primeira vez na minha vida, fui respeitada na comunidade científica, não pelo cargo que ocupo, mas pelos meus comentários e saber. Pela primeira vez na minha vida, me senti, de fato, integrante daquele seleto grupo. Pela primeira vez na minha vida, pude ser eu mesma, aquela cientista nerd e maluca, e ainda assim as pessoas gostarem do meu trabalho.
Que semana! Pessoas que eu amo ficaram orgulhosas! Foi muita emoção! Mas nem toda emoção é boa.
Nada é perfeito. Ao passo que tive sucesso no meu trabalho, também recebi uma notícia péssima: a pessoa que apostou em mim para carregar o nome da Coordenação Geral de Laboratórios teve que sair do cargo. Pediram o cargo dela por ser um cargo político. E para cargos políticos, a competência não importa. Muito desumano isso. 
A pessoa que me deu uma chance de fazer o que eu realmente gosto durante essa semana e quiçá na vida, que me apoiou sempre que precisei, teve que sair num momento de tantas realizações profissionais e pessoais minhas. Como poderia compartilhar tamanha alegria se estava igualmente inundada por uma enorme decepção e tristeza?
Ela é uma pessoa fantástica, primeiro porque é uma das mais sinceras que conheci. Diz o que pensa e não bajula ninguém, duas qualidades admiráveis num mundo permeado por tanta falsidade.
Segundo porque é uma gestora admirável, que fazia milagres para manter uma estrutura complexa e uma rede de insumos e pesquisas funcionando num país imenso como o Brasil e de necessidades tão diferentes entre as regiões.
Terceiro, porque ela tem um sexto sentido, um feeling, um carinho com as necessidades profissionais e pessoais de cada um, que mais que gestora, tornou-se em pouco tempo uma amiga. 
Ela é uma pessoa admirável e ontem eu tive a chance de dizer que era sua fã quando me despedi. E sou mesmo. Não preciso puxar saco de ninguém - e quem me conhece sabe que não tempo paciência para mimimi. Mas para ela eu tive que falar o quanto eu a admiro e o quanto irá fazer falta, não sei se a todos, mas a mim pelo menos. Desejei sorte e sucesso, com o coração apertado. 
Eu só não consegui agradecer. Então eu deixo registrado aqui o meu muito obrigada, Mariana, por ter me proporcionado o melhor momento profissional da minha vida. Nunca vou esquecer o que você fez por mim. A maior lição que alguém pode deixar é a generosidade e isso você tem de sobra.
Que Deus abençoe sua jornada, hoje e sempre. E lembre-se: o sol sempre brilha, mesmo entre prédios e nuvens. E você brilhará em qualquer lugar que estiver.

Daniele Van-Lume Simões   03/12/2016