quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Estou de férias

Estou de férias. O blog não acabou. Preciso desse tempo para organizar ideias, recompor energia, pensamentos, repensar atitudes e não pensar em nada, quando me der na telha.
Preciso desse tempo para descansar, para esquecer vaidades e cuidar de pessoas queridas. Preciso desse tempo para respirar, para olhar o céu, para dormir 10h seguidas sem culpa.
Preciso desse tempo para usar meu tênis branco, meu jeans rasgado e no máximo um batom. Preciso desse tempo para ficar de cara lavada, sem ironias nem trocadilhos.
Preciso desse tempo para comer o que quiser, sem culpa nenhuma. E tomar vinho, sem nem lembrar que culpa existe.
Preciso desse tempo para planejar o ano, as próximas férias e o próximo livro.
Preciso desse tempo pra mim, para de alguma forma, ficar mais próxima a vocês, queridos leitores e amigos.
Até março!

Daniele Van-Lume Simões   23 de fevereiro de 2017


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Felicidade

Para muitos, felicidade é dinheiro ou fama. Ou poder. Ou tudo isso junto. Para outros, felicidade é um corpo perfeito, uma barriga chapada, um cabelo maravilhoso, uma roupa da moda. Mas tudo isso passa, acaba, perde o valor quando perde-se a vida.
Então, sozinha, quase meia noite, pensei o que seria felicidade pra mim e te digo, o tamanho de algo que te traz felicidade é inversamente proporcional aos anos de vida. Quanto mais velhos, percebemos que a felicidade está sim nas pequenas coisas.
Felicidade é o cheiro de café fresco numa manhã de sábado.
É o sol num dia frio.
É a chuva num dia quente.
É a comida que fazemos e que fica deliciosa.
É o vinho, qualquer um, contanto que seja um bom vinho.
É um abraço do seu pai.
É o beijo do seu amor.
É dormir abraçado com seu amor.
É sua cama depois de uma longa viagem.
É seu picolé predileto.
É um pedaço de bolo quentinho.
É um pedaço de chocolate após o almoço.
É ter tempo para dar um cochilo no meio do dia - isso além de felicidade, é luxo.
É ser grato por sua saúde.
É ser grato por sua inteligência.
É acreditar em Deus e nunca se sentir só.
É acreditar nas pessoas, porque nem todas são ruins.
É ter um trabalho, emprego ou dom.
É usar uma roupa folgada em casa.
É assistir um filme bacana.
É cheiro de livro novo.
É ver uma árvore florida.
É ver uma criança sorrindo.
É ouvir os passarinhos cantando.
É o silêncio.
É a hora de dormir e de acordar.
É usar seus melhores talheres para jantar na segunda feira.
É morar num lugar que você se sente bem.
É olhar o céu de dentro de um avião.
É olhar o céu da sua janela.
É entrar no mar e pegar jacaré.
É comer um doce gostoso.
É tomar água na taça.
É tomar uma cerveja gelada.
É dizer que ama.
É ouvir que é amado.
É amar e nem precisar dizer nada.
É ter a consciência tranquila.
É ter a certeza que você é merecedor de coisas boas.
É buscar a paz onde ela está - dentro de você.
Felicidade é algo simples e corriqueiro, e talvez por esperarmos algo mirabolante nas nossas vidas, muitas vezes não percebemos o quanto somos felizes.
Todos os dias.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

A amamentação e o tabu (repare na ordem do título)


É impressionante como, nos dias atuais, algo tão primitivo e visceral é um tabu. O que deveria ser natural, hoje causa constrangimento. Vejo mães inibidas de amamentarem seus filhos em público, ao lado de maridos ciumentos e inseguros que alguém deseje o seio de sua mulher durante este ato. A humanidade está doente.
Abri hoje uma página famosa de notícias (a BBC) e uma delas era sobre uma modelo que postou uma foto amamentando sua filha de dois anos, para mostrar que não tem nada de errado nisso. E claro, como não podia ser diferente, ela recebeu uma enxurrada de críticas, sendo a mais pesada de todas uma que dizia que a foto e a atitude dela eram nojentas.
Isso me deixou pasma, estarrecida. Como assim nojentas? Por que a criança tem dois anos?
Para pessoas desinformadas, a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda a amamentação exclusivamente até os 6 meses de idade e prioritariamente até os dois anos. Isso mesmo, dois anos. Mas cada mãe amamenta o tempo que achar necessário e que tiver leite. Cada mãe amamenta pelo tempo que se sentir confortável ou que seu filho necessite. A amamentação não é só nutrição, é um ato de amor, de troca, de conexão emocional com seu filho. Quem erotiza a amamentação de crianças um pouco maiores é doente. Os seios não são os órgãos reprodutores, pelo que eu saiba. Essa erotização dos seios veio muito depois do ato de amamentar, pode ter certeza. Assim como a bunda, que pelo que eu saiba, tem outra função mais importante do que usar biquínis fio-dental.
Aí, depois de ler os comentários absurdos de gente carola e cansativa, eu me pergunto: será que na época que surgiu a espécie humana, sem artificio de cozinhar ou processar alimentos - as famosas papinhas de neném ou leite NAN - havia outra forma de alimentar as crianças? Que eu conheça, não. Era amamentando mesmo, por talvez até mais que dois anos, pois a dentição precisava se completar para que a criança conseguisse mastigar alimentos duros/crus. Lembra que o homem não nasceu dominando o fogo? Pois bem, isso ele conseguiu. Mas pelo jeito, não domina seus preconceitos até hoje.
E agora, milênios depois, nos deparamos com notícias como essa, com as quais pessoas hipócritas se chocam com o ato mais antigo que existe de nutrir um ser humano. Não falo agora nem de amor ou conexão sentimental, falo de nutrição mesmo. E mais, se alguém vê maldade numa foto tão linda como essa acima, saiba que o problema não está na foto e sim na sua cabeça.
Portanto, se você ainda tem algum tabu com a amamentação em público, agradeça aos seus antepassados terem sido mais evoluídos que você nesse aspecto, pois se não fossem essas mães que amamentaram seus filhos milhares de anos atrás, não estaríamos aqui hoje, lendo esse texto.

Daniele Van-Lume Simões    14 de fevereiro de 2017


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

A patologia e a vida


Estou há quase uma semana fora de casa, em Belém, Pará. Vim acompanhar um treinamento de um grupo de patologistas para realização da técnica de imunohistoquímica. E tive boas surpresas.
O grupo que conheci é maravilhoso e me deu uma verdadeira lição de coragem e humildade. Mesmo com títulos e formações acadêmicas, mesmo trabalhando em renomadas instituições, eles mostraram humildade em aprender, em se colocarem como alunos. Disponibilidade em adquirir um novo conhecimento, independente do quanto já saibam. Mostraram solidariedade para com os colegas e com organizadores do evento. 
Trocamos ideias, a maioria do grupo mais velha que eu, mas não me excluíram. Pelo contrário, compartilharam comigo suas histórias de vida e de profissão. Pude aprender um pouquinho com cada um que conversei. Alguns fiquei mais próxima, outros conversei pouco, mas me senti privilegiada por ter tido a oportunidade de conhecer profissionais tão especiais.
Especiais porque lidam todo dia com a morte, com autópsias, necrópsias e ainda assim não perderam a doçura. Isso é mais que escolha, é um dom. Especiais porque dedicam seu tempo a elucidar a causa da morte - e mesmo sabendo que não podem devolver a vida - sabem que o laudo traz um conforto para a família ao colocarem um ponto final numa angústia quando é sabido o motivo da perda do ente querido. Dedicam seu tempo à ciência, estudando com afinco cada técnica que aparece, cada doença (nova ou antiga) que se torna epidêmica para melhorar a qualidade da vigilância do país. 
São profissionais que muitas vezes não conhecemos, pois só nos aproximamos deles na dor maior da perda - e às vezes nem assim. Essa semana eu conheci um grupo, de diversas idades, costumes, locais. Histórias de superação, histórias de reflexão, histórias de vida. Pessoas que guardarei com carinho na memória.
A estes profissionais que corajosamente escolheram lidar com a morte todos os dias, obrigada por me lembrarem, com suas experiências pessoais e profissionais e com humildade, do valor imensurável da vida.

Daniele Van-Lume Simões   09 de fevereiro de 2017


O céu é o limite

Já comentei, em alguns textos anteriores, do medo que eu tinha de viajar de avião. Medo não. Pânico. Ficava suando frio, tremia, pensava em desistir se chovesse, tomava remédios para dormir durante o voo, mas nada adiantava.
Então, resolvi combater esse processo que me impedia de viajar, seja a trabalho seja de férias, com um tratamento específico para o pânico de voar - e deu certo. Não que eu hoje vá me aventurar numa asa delta ou saltar de paraquedas, mas para quem ficava petrificada a cada mínimo balanço do avião, consigo até dormir se isso acontece.
Hoje, vejo que superar nossos medos só depende da gente querer isso. Depende da gente buscar as saídas, os caminhos para conseguir vencer os desafios. Ninguém vai chegar com uma solução instantânea, é preciso coragem para mudar. É preciso coragem para enfrentar. Só assim, vencemos aquilo que nos paralisa.
Assim foi com meu medo de avião. Assim é na vida, todos os dias. Precisamos vencer nossos medos, nossos bloqueios emocionais que paralisam nossa vida e enterram nossos sonhos. Esses bloqueios causam angústia, ansiedade, depressão. Causam estresse, impotência. Todos males da vida moderna, porque ela nos cobra mais do que devia. Mesmo assim é nosso dever enfrenta-la de frente.
É preciso que saibamos até onde o medo é saudável, é uma questão de sobrevivência e responsabilidade e o limite entre isto e a inércia. Só vamos descobrindo quando é salutar sentir medo com a maturidade. Sentir medo de sair de madrugada quando se tem filhos pequenos, por conta de acidentes ou assaltos é saudável, pois você quer preservar sua vida para cuidar de sua prole. É senso de responsabilidade, ainda mais se você mora num grande centro urbano em um país com desigualdade social. Ou ainda sentir medo de morrer sem ter realizado os sonhos, é esse medo que te faz acordar todos os dias cedo e ir em busca dos seus objetivos, por mais cansado que esteja. Esse medo te impulsiona para frente, por mais contraditório que pareça.
Mas medos bobos, medo de viver, medo de altura, medo de viajar de avião, medo de barata, medo do mar, medo de elevador, medo de qualquer coisa que te impede de ter uma vida normal, tem tratamento e você pode buscá-lo para melhorar sua qualidade de vida.
Domingo eu viajei de avião e vi, com esta foto que tirei, a 11 mil pés de altitude, como fui boba em ter medo de olhar pela janela. Nesta paisagem, surpreendentemente eu encontrei paz, eu encontrei Deus. Hoje posso dizer que tenho uma foto de Deus. É esta foto.


Hoje, não vou mais perder tempo de contemplar este céu tão perfeito por um sentimento que pode me transformar em algo tão pequeno. Sempre que puder, vou contemplar este céu – seja na foto ou ao vivo.
Por isso meu caro, liberte-se. Não deixe o medo te impedir de enxergar as coisas mais lindas que existem nessa vida.

Daniele Van-Lume Simões    09 de fevereiro de 2017


sábado, 4 de fevereiro de 2017

Geisel, teletubbies e perversidade

Ando estarrecida. Cada absurdo que tem acontecido no mundo, que se tiver uma passagem para Marte, sem volta, compro a minha lindamente. À vista.
As pessoas estão cegas de ódio. Desrespeito pela vida humana, seja vindo de médicos ou de juristas. Duas classes que deveriam dar exemplo de ética e servidão.
Comentários maldosos tomaram a internet depois da morte da ex primeira dama Dona Marisa Leticia - que logo após sua morte, um site famoso de notícias fez questão de retirar o "Dona" de suas matérias e os apresentadores de um famoso telejornal saíram sorridentes, quase gargalhando, mostrando a total falta de compaixão com a dor do outro.
O ódio, a ironia e os justiceiros batedores de panela andam soltos. Pessoas mesquinhas, vaidosas, analfabetas políticas e funcionais, escrevem coisas absurdas, se vangloriam da morte da ex primeira dama, com comemorações, com posts irônicos e doentios. Ódio, ódio, ódio. Só isso que essas pessoas conseguem sentir.
Gente sem ética, sem amor no coração, sem educação, sem caráter, perversas. Gente da pior espécie.
Percebi uma coisa: podemos dividi-los em dois grandes grupos. Os que foram jovens na ditadura e morrem de saudades da época - porque, claro, não poder dizer o que pensa, não poder votar e ter que engolir uma violência monstruosa é algo muito bom de se viver. Querem reviver isso.
Um exemplo desse primeiro grupo é um jurista de MG que disse em seu facebook: "Morre peste! Quero abrir logo minha champagne." Uma pessoa dessa não merece atuar, ironicamente, na Justiça.
E o outro grupo é o de jovens, que foram crianças na época dos teletubbies. Uns bichinhos idiotas e alienados, que não falam nada com coisa nenhuma, não podiam ensinar algo que prestasse. Criou-se uma corja de monstrengos iguais ao médico que disse que Marisa ia ser abraçada pelo capeta e que o procedimento correto não deveria ser realizado. Esse tipinho vaidoso, egocêntrico, leite com pera e bola de gude no tapete é o nosso futuro. Será que os papais desse monstro estão orgulhosos? É capaz de estarem, pois devem ter sido os responsáveis por deixar esse moleque se alienar.
Aos que não respeitaram a morte da Dona Marisa e deixaram o ódio partidário cegar, deixaram o ódio ao ser humano ser maior que o respeito pela dignidade humana, com consequente desrespeito pela dor da morte, pela família num momento tão difícil, digo uma coisa igual ao que vi num outro blog mais cedo, na única linguagem que vocês entendem- já que não consigo desenhar aqui: enfiem suas panelas no cú.