terça-feira, 7 de março de 2017

O machismo disfarçado

Não vim discutir neste texto a essência nem as consequências do machismo, por dois motivos: poderia cometer o erro imperdoável de ser rasa em uma crônica e seriam necessárias várias delas para abordar o tema de forma razoavelmente profunda. Mas vim para comentar um fato que li hoje exatamente sobre isso.
Está passando na televisão aberta brasileira, desde o início do ano, um programa mundialmente conhecido (e desgastado), o Big Brother Brasil. Nele, os "brothers" ficam confinados em uma mansão durante alguns meses para ganhar um prêmio. Confesso que assisti algumas edições no início - porque a curiosidade humana é foda, mas depois desencantei, pois sempre são as mesmas fórmulas, personagens, festas etc. 
No entanto, hoje, ao abrir um site de notícias, uma matéria chamou minha atenção. Um "brother" que está tendo um rolo com uma moça dentro da casa proibiu ela de beber. Isso mesmo: PROIBIU. Tudo isso porque a moça exagerou nas doses de vodka numa festa e passou mal, dizem que teve coma alcoólico. Aí eu pergunto: É bonito beber desse jeito? A resposta, definitivamente, é não - independente de ser homem ou mulher. Mas, às vezes, a inexperiência, a falta de conhecimento dos limites do corpo e a imaturidade fazem a gente tomar um porre daqueles. Afinal, quem nunca bebeu para se embriagar, atire o primeiro copo.
Mas, muito mais feio do que beber até passar mal, é proibir o direito de escolha de alguém, se achando dono da verdade e do corpo e das vontades da moça. Foi exatamente o que ocorreu.
O rapaz em questão, numa discussão, afirmou que ela estaria proibida de beber nas festas da casa e que se quisesse beber algo, teria que pedir para ele. Para completar, ainda disse que mulher não deveria beber. Oi?! Como alguém pode achar normal esta atitude? É sério isso? Vai colocar também uma coleira e levar para passear duas vezes por dia?
Muita gente pode até pensar que a intenção dele foi boa e confunde posse com cuidado. Cuidar é aconselhar, é dialogar, é dizer sua opinião para que a outra pessoa reflita, é mostrar sua preocupação diante de um fato que comprometeu a saúde, mas mantendo inabalável o direito de escolha desta pessoa. Já posse é exatamente o que este rapaz fez. Proibir, mandar, criticar, ameaçar e ai se desobedecer! É a versão moderna do "deite que eu quero lhe usar". Vai dizer que ele nunca tomou um porre? E se não tomou, tadinho, nunca terá boas histórias para contar. 
São atitudes impositivas e distorcidas, desde as pequenas até as mais radicais, que alimentam os estereótipos de mulher para casar e para transar, a violência contra a mulher, as "justificativas" injustificáveis de estupros coletivos porque a roupa era curta, a amputação das mãos como ocorreu com uma moça que terminou o relacionamento, a queimadura no rosto com ácido como ocorreu com outra porque rejeitou o pedido de casamento, a violência física, os homicídios. Essas histórias de horror estão nas mídias de comunicação para quem quiser ver e todas acompanhadas de uma bela justificativa. Um tsunami começa com um pequeno abalo, uma pequena onda, até acontecer o pior. 
E você pensa que o moço é um bronco dos cafundós criado numa cultura machista, sem ser letrado e sem conhecimento de vida? Não. O rapaz é médico, cirurgião plástico, lida todos os dias com a vaidade de mulheres que querem turbinar os seios, o bumbum, a barriga, com mulheres que querem mostrar seu corpo para se sentirem mais femininas, atraentes, gostosas mesmo. O que será que ele pensa das clientes então? Será que mulheres que se mostram, bebem, fazem o que querem de suas vidas devem ser "adestradas" como um animal, caso contrário podem ganhar adjetivos pejorativos onde puta seria o mais leve? Teriam que pedir permissão ao senhorzinho de engenho para fazer o que querem? Vale a reflexão.
Os jovens de hoje podem até estar perdidos e o uso da bebida alcoólica banalizada, mas ninguém tem o direito de exterminar suas vontades e proibir seu direito de escolha - por mais tola que sua escolha tenha sido, baseando-se num machismo disfarçado de cavalheirismo ou cuidado.  
Não vamos mais permitir que este tipo de atitude continue se perpetuando e fazendo vítimas não só de violência física, mas, sobretudo psicológica. Portanto, Emilly, querida, tome todos os porres que a sua juventude exigir. Você tem este direito de escolha.
           

Daniele Van-Lume Simões       07 de março de 2017

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