segunda-feira, 26 de junho de 2017

As palavras e a magia


As palavras são instrumentos poderosos. Podem ferir ou consolar, podem humilhar ou afagar. Podem abrir feridas ou curá-las. Podem ser o que há de melhor em nós – ou o pior, pois as palavras e os pensamentos andam de mãos dadas, como um casal apaixonado. As palavras são mágicas, pois podem provocar o que elas quiserem em que as lê ou as escuta. Quase possuem vida própria, depois de libertadas.
E é nesse encanto todo que as palavras possuem que me recordo da minha infância. Quando era criança, uma das minhas comidas prediletas era sopa de letrinhas. Acho que nem existe mais isso, tudo está menos lúdico e mais tecnológico. Daqui a pouco, inventarão sopa de tablet. O fato é que toda sexta-feira, minha mãe fazia a tal sopa de letrinhas. Um prato fundo de imaginação e com cheirinho de galinha caipira. Desde a sopa da sexta-feira, as palavras já me encantavam. Ficava brincando de formar palavras na borda do prato e quanto maior a palavra, melhor! Não importava o seu significado. Mas tenho uma frustração: nunca conseguir formar “otorrinolaringologista”. As sopas de antigamente não eram tão complexas.
Quando somos criança, palavra boa é palavra nova e grande. Desperta a curiosidade, atiça a imaginação. Quando adultos, palavra boa é aquela que acolhe, seja o ouvinte/leitor, seja nós mesmos. É aquela que desperta os melhores sentimentos. O tamanho da palavra pouco importa, seu significado é o seu real valor.
Quem inventou a primeira palavra, não era apenas sábio. Era um mago misturado com uma espécie de Deus. Entendia da magia das palavras e do milagre da comunicação. Entendia a alegria que era uma criança expressar sua curiosidade por meio delas, ou o alívio de um adulto ao expressar seus sentimentos.
E é uma pena que para muitos, hoje em dia, a palavra valha tão pouco e seja tão mal empregada. Erram na escrita. Abreviam tudo. Esquecem-se da sua magia e da melhor forma de utilizá-las: fazendo alguém feliz.

Daniele Van-Lume Simões               26 de junho de 2017


quinta-feira, 22 de junho de 2017

A ausência e seu significado


Algumas pessoas ultimamente vieram, preocupadas, me perguntar se eu estou bem, só porque eu estive ausente alguns dias. Estive ausente por várias razões: férias, viagens a trabalho, outras coisas interessantes na vida para fazer e porque justamente isso, estou bem. Sim, estou bem e não o contrário.
Sempre associamos a ausência de alguém a algo ruim, o que não é verdade. Ausência só é ruim quando é de alguém que amamos e que nunca mais veremos – a morte nos ensina isso da forma mais dolorosa. As outras ausências não. São até boas. Quer coisa mais bacana que um reencontro com uma amiga de infância que não vê há décadas?
Num mundo onde tudo que é feito é postado no instagram e que vida perfeita você encontra logo ali no facebook, uma pessoa que não tem uma coisa ou outra e ainda “some” fisicamente só pode estar fodida, hahaha. Acho é graça!
Quantas ideias preconcebidas de vida perfeita. Do que é estar bem ou sentir-se bem. Para estar bem, é necessário mostrar que comeu algo gostoso, ou a roupa bacana que você colocou ou postar todas as fotos de uma viagem que fez? Estar bem é bater ponto às 7h da manhã de segunda a sexta e só largar às 18h, porque se você sair às 16h vão achar que você se sentiu mal? Estar bem é escrever todos os dias em grupos de whatsapp e se você some só pode estar gorda, doente ou com dívidas?
Para mim, estar bem é me sentir em paz com minha consciência. É ficar em silêncio sem obrigação de dar um pio. É olhar a paisagem do caminho do trabalho, ou da viagem pensando em nada ou no que vou cozinhar. É chegar à minha casa e comer algo gostoso e caseiro feito por mim. É trabalhar o suficiente, porque quem fica das 7 às 19h para conseguir fechar uma tarefa diária das duas uma, ou é plantonista ou é incompetente. Estar bem é ter poucos, mas bons amigos. É aproveitar cada momento com seu amor. É não me cobrar para aparecer ou me exibir, seja no trabalho, seja no blog, seja no whatsapp. Estar bem é ter a certeza que tudo vai dar certo. Como sempre deu, no final das contas. Estar bem é sumir um pouco, para reencontrar-se. É conectar-se com Deus e agradecer em pensamento por cada momento vivido do dia e da vida. Estar bem é dormir 8h de sono à noite e é voltar para casa com vontade de não estar em mais nenhum outro lugar do mundo que não seja lá.
Estar bem é se ausentar de tudo o que é supérfluo e gastar sua energia só com o que importa. Portanto, quando você encontrar alguém que sumiu, acredite que ela pode estar bem  e feliz – e ninguém sabe.


Daniele Van-Lume Simões             22 de junho de 2017

O lugar das pessoas e a incompetência

Dizem por aí que as pessoas não se colocam umas nos lugares das outras, mas isso é uma inverdade. Colocam-se demais, até sem serem chamadas para ocupá-los. Por isso o mundo está esta zona. Um passando a perna no outro, brigando por espaço, principalmente profissional.
Sempre busquei meu crescimento profissional baseado em meritocracia. Mas em vez de méritos próprios, alguns buscam tentando provar que o outro é incompetente, e acabam dando um tiro no próprio pé. É o caminho mais cômodo, porque não existe esforço pessoal em aprender, em estudar, em produzir de verdade – apenas o esforço em provar que o que o outro fez não foi bom (mesmo que para isso as informações divulgadas para Deus e o mundo sejam mentirosas).
Vejo pessoas passando por isso. Eu já passei por isso – e num passado não tão distante. Passei num concurso que sempre quis por mérito. Abdiquei de inúmeros finais de semana de praia/lazer para estudar. Dediquei, além dos 4 anos de faculdade, mais 6 anos na minha formação, entre mestrado e doutorado e outros cursos complementares. E hoje, vejo pessoas querendo prejudicar outras para ver se o brilho de alguém respinga nelas acidentalmente. Contentam-se com uma faísca, em vez da fogueira.
Só que a vida não é um eterno São João, e a faísca, muitas vezes, não respinga e rende fogo e brilho. Fica feio. É de uma baixeza sem tamanho que podem até demorar em perceberem, mas a máscara cai em algum momento. Alguns sentem nojo deste tipo de criatura, eu só sinto pena. Não acredito que uma pessoa assim pode ser feliz na vida sem um propósito seu, que não seja passar por cima dos outros. Basta uma reunião mais aprofundada para perceber que a pessoa não domina o que fala e mal sabe o que diz (ou escreve).
A este tipo de gente, não desejo mal. Desejo sim muitos trabalhos, muitas oficinas, muitas reuniões, muitas mesas redondas, muitas palestras. Não tenho dúvidas que com tantas oportunidades, a incompetência certamente será provada – só que não a minha.

Daniele Van-Lume Simões          22 de junho de 2017





sexta-feira, 2 de junho de 2017

Os caciques e as tribos

Cargos de poder são disputados desde a humanidade tem consciência de sua existência. Há milênios, imperadores, reis, caciques, presidentes, ditadores lutam pelo poder de decidir a vida dos outros. Digamos que é uma fofoca em larga escala, só que na prática. Mas não precisamos ir tão longe. Basta ir ao trabalho. Enquanto alguns querem ser chefes, lutam pelo poder de influenciar – ou pior, mandar – nas pessoas eu só queria mesmo era ser ryca. Para assistir a essa palhaçada toda de longe – e de camarote. Com um Chandon. Salut.
Tenho percebido que mesmo com a diminuição da quantidade de tribos no Brasil, a quantidade de “caciques” só aumenta.
Os ianomâmis que se cuidem. A concorrência está forte. Daqui a pouco estarão de sapato social. É muito cacique pra pouca tribo.


Daniele Van-Lume Simões    02 de junho de 2017

Julgamentos pessoais


As pessoas normalmente julgam. Nasceram juízes. Julgam sua roupa, seu sapato, seu carro, sua escolaridade, seus modos. Desde crianças julgamos. A primeira pergunta na escola é: Qual o carro do seu pai? Afinal, querem saber qual o pai mais rico para discriminar o filho do pai mais pobre. Criança não entende de carro, mas desde cedo entende que vai passar por isso a vida inteira.
Sempre fui julgada. Primeiro por ser filha única. Mimada, chata, egoísta são alguns dos adjetivos que sempre me colocaram sem me conhecer. Quase ninguém sabe da minha história nem o quanto lutei para chegar até onde cheguei. Ninguém sabe quantos fins de semana abri mão para estudar, trabalhar, correr atrás dos meus sonhos. Nem vão saber. Minhas contas são pagas por mim. Arrogância? Que seja. Eu chamo de discrição. Ouvi recentemente de um professor da Johns Hopkins: -Achei que você era chata, mas você é legal. E em espanhol. Eu apenas sorri. Julgamentos alheios não escolhem nacionalidade. É um mal universal.
Na adolescência fui julgada por ser gorda, por ser CDF (nerd hoje em dia), por ser tímida. Tinha vergonha de falar com pessoas que não conhecia e por isso me julgavam metida. Não era, era apenas timidez. Tinha vergonha até de dizer pros meus pais o quanto os amo. Perdi 20 anos calada, sem expressar meus sentimentos para as pessoas mais importantes da minha vida. Ainda bem que hoje eu tenho 34. Tem 14 anos que eles sabem disso.
Quando escolhi a faculdade que queria fazer, fui julgada porque não fiz medicina ou direito pela família, pelos amigos, até pelo coordenador da escola. “Você é capaz de passar em medicina”. E eu pensava: “Eu sei”. Mas eu queria ser cientista, conhecer moléculas, os genes, a imunopatologia das doenças. Fui julgada por querer ser cientista. Engoli os julgamentos e fiz meu curso, meu mestrado, meu doutorado. Sou nerd mesmo e daí? Isso não é defeito, é apenas um modo de viver.
Já fui julgada por ser mulher. Já fui julgada porque sou vaidosa. Acham-me fútil. Não ligo. Sou vaidosa, adoro meus sapatos, minhas maquiagens e minhas máscaras de argila. Adoro ficar a cara do Shrek, para depois ter uma pele de seda. Divirto-me com isso. E com tantos julgamentos, aprendi a ligar o foda-se, enquanto passo minha máscara.
Hoje não é diferente. Tenho meu trabalho, meu casamento, minha casa e continuo sendo julgada. Os julgamentos são pessoais. Vêm de todos os lados. Discussão no campo das ideias não existe. O ataque é pessoal. Ah, Schopenhauer... há três séculos você já sabia disso. As pessoas andam donas da verdade e eu, claro, estou errada. E isso é verbalizado. Respeito com a opinião ou o trabalho alheio andam em falta. As pessoas estão agressivas, cheias de razão, cheias de si. Enquanto ofendem, eu acho graça. E acho que se ocupam tanto com julgamentos alheios exatamente por isso: andam cheias de si. Deve ser insuportável ser um juiz sem causa.
E eu? Bom, eu estou muito ocupada. Cuidado da minha vida e do que realmente importa. E ligando o foda-se para os juízes da minha vida.

Daniele Van-Lume Simões      02 de junho de 2017